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Deixei Caleb supervisionando a retirada do corpo de Harry e voltei para o jornal. Muita coisa havia acontecido comigo em vinte e cinco anos — acho que a vida de todos, de um jeito ou de outro, acaba mudando — , mas o mais importante no meu caso é que acabei falaindo. Quatrocentos mil dólares não eram tanto dinheiro, afinal. É uma longa história, e para resumir digo que a pequena fortuna foi bem gasta com mulheres, bebidas, viagens, drogas, ótimas aventuras e más companhias. Assim que esvaziei os bolsos, consegui um emprego no jornal local.
Prune era a dona da empresa, embora ninguém soubesse ao certo como ou quando ela a adquirira. Seu dinheiro estava bem aplicado nos bancos de Nova York; porém, vez ou outra, Prune fazia alguma aquisição que lhe vinha à cabeça. Alguns economistas ortodoxos mal podiam acreditar que aquela senhora ampliara tanto sua fortuna com investimentos impulsivos. Quando ela comprara a plantação de batatas para ter sua privacidade, todos disseram que havia gasto dinheiro em vão. Mas a cidade mudou muito em vinte e cinco anos; a população de Nova York — não nossa gente, e sim os "novos-ricos" — começou a se expendir na direção de Hamptons. Aqueles vinte hectares de plantação de batatas, que haviam custado cem mil dólares, agora valiam dez ou doze milhões. Prune evitava falar sobre a aquisição do jornal; sempre que alguém tocava no assunto ela dava respostas evasivas. Porém, assim que eu voltei da cidade grande humilhado, processado por Daphne por um cheque sem fundos, foi Prune quem me recebeu de braços abertos.
— Então, querido, você vai ter de trabalhar.
— Acho que sim — concordei olhando a chuva que caía — Mas o que eu posso fazer?
— Que tal trabalhar para mim?
— Onde?
— No jornal.
Aquela tinha sido a primeira vez que minha tia dissera abertamente que comprara o jornal. Assimcomo o campo de batatas, o jornal demonstrou ser um investimento ousado e de sucesso. Por causa do turismo, o panfleto quinzenal transformara-se em tablóide semanaal de doze páginas; não faltavam interessados em publicar anúncios: antiquários, restaurantes, hotéis e imobiliárias.
As notícias constituíam prioridade. Prune extinquira quase toda coluna social e mexericos de gente famosa, aumentando a cobertura dos eventos locais e das praias vizinhas.
No inverno, quando das atividades eram masi restritas, dávamos mais enfoque à política local, aos últimos acontecimentos. No verão ,entretanto, reduzíamos as notícias factuais porque a mioria dos nossos leitores já lia algum outro jornal nacional, como o New York Times ou o Washington Post.
Mesmo sendo uma notícia factual, a morte de Harry Boetchner ocuparia grande parte da primeira página.
Magda ajeitava a impressora quando cheguei: ela e o marido eram os donos antes de Prune comprar o jornal.
— Onde diabo você esteve? — perguntou Magda acendendo um cigarro e passando a mão nervosamente por entre os cabelos ruivos.
— Um crime — contei-lhe.
— Não é crime você trabalhar! — Magda nunca havia se conformado com a ideia de eu trabalhar ali.
— Harry Boetchner está morto — eu disse, sentando-me à escrivaninha. Ela piscou incrédula. Estava tão maquilada que suas pálpebras quase se enroscaram.
— Parece que o cavalo dele esmagou o crânio.
Magda piscou nervosamente.
— Coitado! — ela murmurrou, apagando o cigarro. — Ele adorava aquele animal!
— É ...
— O que vai acontecer com o cavalo?
— Acho que nada. — Como ela podia pensar mais no animal do que no morto?
— Talvez queiram matá-lo.
— Escute aqui! — Eu bufava de raiva ao ver tanto desinteresse. — Harry Boetchner morreu!
— Para mim, ele morreu anos atrás — Magda vociferou e deu-me as costas. — Escreva o que quiser.
— Será que ninguém se importa com a morte do Harry? — indaguei.
Magda me encarou.
— Já fazia muito tempo que Harry Boetchener não dava a mínima para o pessoal daqui. Por isso, não sei por que você está tão revoltado.
Afrouxei a gravata e fiquei a olhar o teclado da máquina de escrever. Qual seria a melhor abertura para uma matéria de assassinato? Talvez começar com a história do morto; Hary era nativo da região, o menino pobre que acabar enriquecendo. "Cidadão de Hamptons é pisoteado por cavalo."
Não, não iria fucnionar,. Tentei descrever a história da vida dele, tentei também a volta ao lar do filho pródigo. Cada nova versão me parecia pior do que a anterior. Finalmente juntei um pouco de cada e entreguei o resultado final para Magda.
— Só isso? — perguntou-me olhando a folha de papel em suas mãos.
— Você falou para eu fazer o que quisesse.
— Deus do céu! Nós demos mais cobertura à safra de tomates! Pegue isto de volta e traga uma boa história! Vá à cata de informações, Ben. Se for preciso, pegue até o depoimento do cavalo. Leve a máquina também e tire algumas boas fotos. Uma da casa do falecido iria bem.
No Clarim, eram os repórteres que faziam as reportagens fotográficas. Eu considerava isso uma economia sem sentido, mas não me importava em me arriscar no mercado fotofráfico.
— Se você não conseguir escrever muito — concluiu Magda —, a gente completa a página com fotografias.
O prazo fatal para o trabalhar estar pronto era à meia-noite. Entrei no Austin Healey que Prune me dera no aniversário. Não era um carro veloz, mas me levou logo a Southampton, onde Harry morava desde que havia voltado.
Fiquei sabendo que, depois da partida de Tracy, Harry tinha entrado em depressão. O quer que tenha acontecido durante aquele relacionamento de poucos dias mudou a vida dele. Não se satisfazia mais em trabalhar para o pai. Não estava mais feliz morando na cidade. Então , um dia, em 1960, se tornou um fuzileiro naval, e, pouco depois, foi mandado para a Ásia.
Em pucas palavras, Harry acabou virando um comerciantes. Comprava barato e vendia caro. Enquanto sargento , aprendeu que não era assim tão difícil desviar as mercadorias de seus destinos. Harry fazia um trocado aqui, outro ali. Passou a valorizar o dinheiro eo que poderia conseguir com ele.
Ao voltar para os Estados Unidos, era um homem relativamente rico. E muito durão. Foi primeiro para a Flórida onde, segundo os boatos, trocou o comérico de armas pelo comércio de drogas. Fato esse que nunca ficou provado. Mas ninguém podia negar que os anos que Harry passou em Miami o tornaram mais rico do que ele podia imaginar. Quando se mudou para o norte, sua riqueza já atraía outras riquezas. Seu nome começou a aparecer nas colunas sociais; Harry comprou um apartamento tríplex ao lado do Central Park em Nova York, talvez a região residencial mais cara do país por metro quadrado. E, finalmente, voltou a Hamptons. Àquela altura, o lugar havia mudado bastante; seu pai morrera e sua mãe tinha vendido o açougue. Harry farejou novos negócios e começou a comprar terras; no princípio erma pedaços de fazendas distantes, qualquer terreno que pudesse comprar a um preço baiso. A parte ao norte da ferrovia, por exemplo, era uma região pouco valorizada; o que a maioria esqueceu é que, quando a região Sul não tinha mais para onde crescer, os moradores tiveram de ir para o lado norte. Aquela terra antivamente desprezada agora pertencia a Harry Boetchner.
Apesar dos protestos de alguns figurões locais, Harry tornou-se um grande negociante imobiliário. Ouviram-se rumores de que não tinha mais dinheiro para investir, que havia reativado seus contatos na Flórida. Apenas fofocas. O certo é que os negócios de Harry continuaram properando: ele construiu imensos conjuntos habitacionais, horríveis na opinião de muita gente.
As casas se venderam quase sozinhas, multiplicando a fortuna de Harry Boetchner.
Tudo isso aconteceu ao norte da ferrovia. E, quando ele decidiu comnprar uma casa para si, naturalmente optou pelo lado sul. Acabou adquirindo a velha mansão dos Vanderbilt, cercada por dunas e ao lado do oceano, próxima a Southampton. A casa, quase totalmente destruída pela ação do tempo, fora construída no século passado, na época em que os empregados eram baratos e numerosos. Até os Vanderbilt, na década de vinte, encontraram certa dificuldade para manter tanto luxo, e , aos poucos, fechavam partes da casa até terminarem residindo na ala menor, inicialmente destinada aos empregados e convidados de menor importância.
De tempos em tempos, o conselho da cidade se reunia na prefeitura para analisar o problema da casa abandonada. Era uma péssima visão para os turistas com suas janelas lacradas com pedaços de madeira e o jardim que acabar se transformando num matagal; o cais semidestruído era uma ameaça para sa crianças que se aventuravam na praia. O que todos temiam era que a mansão fosse demolida, uma infinidade de casas geminadas tomasse contada propriedade. Nada muito agradável para os olhos tradicionalistas do conselho.
Por isso, logo que Harry comprou a propriedade, ninguém emitiu nenhuma opinião contrária. Ele levou anos para restaurá-la. Algumas semanas depois do início da obra, a propriedade já parecia outra, como um alcoólatra que é mandado para se desintoxicar numa clínica de tratamento. No final da reforma, não havia quem não deixasse de elogiar a velha mansão; ela representava tudo que o dinheiro podia comprar.
E era para aquela mansão no melhor estilo francês que eu me dirigia. A estrada estava coalhada de carros, a maioria de turistas nova-iorquinos que fugiam do calor da cidade grande. Na beira da rodovia, mais tráfego: barracas de souvenirs, frutas da época, mel, produtos naturais e tudo mais que fosse vendável. Entrei no desvio para Bridgehamptons e serpenteei a costa, passand ao lado de outro dos conjutnso habitacionais de Harry. Quilômetros adiante, mais ao sul, só havia grandes mansões no horizonte; verdadeiros castelos feudais em pleno século vinte.
Encontrei uma pequena multidão no portão da casa. Disparei a buzina e todos me deram passagem. Eu tinha estado lá dezenas de vezes desde que Harry voltara para Hamptons. Nós éramos, num sentindo bem amplo, amigos. A casa era tão grande que, ao passar sob osegundo pórtico, ela pareceu cobrir o céu. Uma pena que minha visita fosse, naquela circunstância, tão funesta. Lembrei-me do comentário de Caleb: ele gostava das coisas erradas. Sua própria casa parecia anunciar-lhe a morte. Mesmo tendo restaurado o esplendor da antiga mansão, Harry só havia empregado seis pessoas para conservá-la, e nenhuma delas estava à vista.
Ainda melancólico, desci do carro diante da entrada. Tranquei o Austin com vagar e me dirigi até a porta da frente. Toquei a campanhia. O som ecoou em toda a minha volta. A última vez que eu apertara aqueal campanhia, centenas de pessoas me rodeavam, sentdas a mesas redondas espalhadas pelo jardim.
Alguns minutos depois, como ninguém atendesse à campainha, decidi verificar na parte de trás, onde moravam os empregados. Mas, antes que eu desse um passo, a porta subitamente foi aberta.
Devia ser o efeito da luz, ou das recentes viagens pelas minhas memórias, pois tive a nítida impressão de que Tracy Egan estava diante de mim, na porta da casa de Harry.
— Boa tarde — a mulher me cumprimentou.
Precisei me amparar na parede. Ela era um fantasma...
— Quem é você? — perguntei.
A moça levantou a cabeça, sacudindo os cabelos num gesto familiar.
— Quem é você, pergunto eu! Eu sou a sra. Harry Boetchner, a dona deste lugar.
Fiquei mudo ,apenas conseguindo encará-la, temendo que aquela visão fosse desaparecer a qualquer instante.
— Se está procurando Harry ... — ela se interrompeu.
Meu coração devia ter parado de palpitar. Não parecia existir mais nada por ali, a não ser eu e aquele fantasma.
— Quem é você? — indaguei pela segunda vez.
Ela se refugiou na escuridão do hall de entrada, fechando a porta. Enfiei o pé na entrada, para impedir que me trancasse do lado de fora.
Uma onda de raiva substituiu o meu medo. O coitado do Harry estava morto; quem, afinal, era aquela impostora? Ao perceber minha fúria, a moça reagiu:
— Vou chamar a polícia!
— Isso seria muito interessante. Neste momento eles devem estar cuidando do corpo de Harry.
Eu prtendia surpreendê-la. Em vez de parecer chocada, ela desmaio aos meus pés. Ouvi sua cabeça bater contra o chão de granito num baque surdo.
Continuei ali de pé durante um longo minuto. A garota estirada no chão — agora eu via melhor — não parecia mais velha do que uma colegial. Outra imagem tomou conta de minha mente, não de Tracy Egan, mas de Harry jogado no chão do estábulo. Ajoelhei-me ao lado da jovem, um pouco incrédulo e ainda emeroso por estar tendo alucinações.
Porém, mes dedos tocaram em carne humana, uma pela alva e macia. Enquanto eu lhe roçava o rosto, as pálpebras se mexeram e ela me olhou apavorada.
— Por favor, me deixe em paz — ela implorou quase num murmúrio. — Eu lhe dou todo o dinheiro que quiser, mas me deixe em paz.
Eu ainda estava ajoelhado ao lado dela, minha mão hesitando em afastar-se daquele lindo rosto.
— Onde estão os empregados?
Elas piscou duas vezes; não queria me responder.
Levantei-me num impulso e dei um passo para trás.
— Harry tinha muitos empregados. Bem, pelo menos mais empregados que o resto do pessoal por aqui.
A moça ergueu-se lentamente, procurando ficar o mais longe possível de mim.
— Quem é você? — ela repetiu.
Dessa vez a voz era mais forte, com stotaque sulista, que me remeteu novamente a Tracy Egan.
— Benjamin Harriman — respondi —, e ainda quero saber o seu nome.
Ela ignorou a pergunta. Levantando os ombros — os ombros de Tracy —, parecia bastante resoluta. Fitou-me com arrogância e disse:
— Harry nunca me falou de você.
— Então estamos quites, porque Harry também nunca me falou de você.
A moça ficou corada. Afastou-se ainda mais, equilibrndo-se com perfeição nos saltos altos. Assim que a vi do outro lado da sala, comentei num tom também mais alto e envolvente:
— Você ainda não me fez a pergunta mais importante.
— Talvez porque eu não queira saber a resposta.
— Foi o cavalo que o matou.
Pensei ter ouvido um suspiro , mas não pude ter certeza. A garota se virou e saiu correndo.
Eu estava sozinho naquele imenso salão. O espectro havia desaparecido. Andei na direção onde a moça tinha sumido ,deixando a porta escancarada. Antes que eu pudesse ver qualquer coisa, ouvi gemidos e choro baixo. Segui os suspiros que, aos poucos, se tornaram gritos desesperados.
Encontrei-a no terraço. Apoiava-se numa mureta que dava para o jardim. Alguma coisa mudou em mim durante aquela caminhada de poucos metros. Não sabia explicar o quê, mas era como se nos conhecêssemos havia muito tempo. Atravessei o terraço, coloquei o braço em seus ombros e puxei-a contra o meu peito. Ela hesitou. O choro ficou engasgado na garganta, quase fazendo-a perder o fôlego. Finalmente ela se deixou levar e jogou a cabeça contra meu ombro. Abracei-a com força, mesclando sensaçõies de desejo, sonhos perdidos da adolescência, e o respeito que eu tinha por Harry Boetchner.
Mesmo quando a moça parou de chorar, continuei apertando-a. O jardim estava tão deserto quanto o pátio particular de palácios; ao longe, as dunas nos fitavam curiosas. Eu não conseguia pensar em nada. Tive um pressentimento de quem ela devia ser. Alguns minuytos depois, a jovem levantou a cabeça e me encarou. Confirmei sob a luz do sol que não passava de uma criança crescida.
— Você é filha de Tracy Egan, não é mesmo?
— Tracy Lyle — ela me corrigiu. — Sim, meu nome era Helen Lyle, por quê? Você conhecia a minha mãe?
— Conhecia, mas isso foi há muito tempo.

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