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Eu mal havia desembarcado na estação de trem de Easthampton e minha prima Daffy já me aborrecia com seus sacarmos:
— A mamãe deve estar bêbada a uma hora dessas.
— A mamãe deve estar bêbada a uma hora dessas.
Naquele verão, há vinte e cinco anos, Daffy tinha catorze anos. Era pequena, magra e com cabelos escuros. Anos mais tarde, quando ela testemunhou contra mim num julgamento, ainda continuava magricela, e, embora mais alta, com os cabelos longos e aloirados.
— O trem atrasou! — expliquei a ela.
Eu estava com dezessete anos naquela época. Meus pais haviam me permitido passar o verão com a irmã de meu pai somente para evitar que eu arrumasse confusão em casa.
Daffy deu-me as costas e começou a andar pela plataforma. Apontava uma limusine preta, impecavelmente polida, estacionada ao lado do automóvel cinzento de sua mãe.
— Aquele carro é dos McNamara — disse com a ironia própria da juventude. — Desde que o velho foi promovido a secretário da Defesa, o trem ganhou um carro-restaurante e sempre atrasa por causa do sujeito. Quanta frescura!
Observei a figura alta e esbelta do secretário da Defesa, enquanto ele se abaixava para entrar na limusine. Naqueles dias, a região acolhia gente muito rica e influente. O litoral ao norte de Long Island abrigava a cinco cidades e a região era conhecida como Hamptons, balneário de milionários durante mais de um século; nos últimos tempos, também artistas, escritores e políticos passaram a frequentar Hamptons.
O automóvel do governo partiu assim que a porta se fechou. Daffy aproveitou a ocasião para fazer um comentário mordaz:
— Prune adora o carro-resturante, principalmente o bar!
Tia Prune casara-se com Vincent Duke, um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Apesar de ser taxada de alcóolatra por muita gente, Prune conservava grande parte da beleza de sua juventude. Aos dezessseis anos, recém-casada, havia viajado pelo mundo em sua lua-de-mel e depois se estabelecera numa mansão na Quinta Avenida, em Nova York. Na época do matrimônio, Duke tinha quarenta anos e seu interesse pela garota de dezesseis aos poucos foi desaparecendo. Mal-amada, Prune refugiara-se na bebida.
Tia Prune casara-se com Vincent Duke, um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Apesar de ser taxada de alcóolatra por muita gente, Prune conservava grande parte da beleza de sua juventude. Aos dezessseis anos, recém-casada, havia viajado pelo mundo em sua lua-de-mel e depois se estabelecera numa mansão na Quinta Avenida, em Nova York. Na época do matrimônio, Duke tinha quarenta anos e seu interesse pela garota de dezesseis aos poucos foi desaparecendo. Mal-amada, Prune refugiara-se na bebida.
Durante o casamento com Vincent Duke, a riqueza de Prune era muitíssimo maior do que a do resto da família. Por essa única razão, suas bebedeiras eram desculpadas. Todos diziam que tinha problemas de audição.
— Isso causa um desiquilíbrio na cabeça dela — minha mãe costumava dizer, olhando de soslaio para meu pai sempre que Prune aprontava das suas. Quantas vezes em recepções formais ela não esbarrou nas mesas derrubando copos, fazendo estardalhaço.
No entanto, tão logo Vincent Duke encontrou outros interesses e se divorciou de Prune, a família simplesmente assumiu que Prune era alcóolatra.
No entanto, tão logo Vincent Duke encontrou outros interesses e se divorciou de Prune, a família simplesmente assumiu que Prune era alcóolatra.
Todos passaram a agir como sua filha Daffy aquele dia na estação de trem.
— Deixei-a no clube enquanto eu fazia o favor de vir te buscar. E você sabe o que ela deve estar aprontando — acrescentou Daffy, cheia de sarcasmo.
— Deixei-a no clube enquanto eu fazia o favor de vir te buscar. E você sabe o que ela deve estar aprontando — acrescentou Daffy, cheia de sarcasmo.
Como era tranquila aquela época. Eu podia passar horas na plataforma apenas olhando a copa das árvores que cercavam o estacionamento. Anos depois, as construtoras comprariam a área e ergueriam casas geminadas; o odor agradável da terra úmida seria substituído por latas de lixo e sujeira. Mas, enquanto eu seguia Daffy até o carro cinza de Prune, só pensava no presente. Eu estava escapando de uma das crises neuróticas de meu pai por causa do dinheiro e trocando a fazenda repleta de preconceitos por férias de aventura e emoção.
— Como foi o seu ano? — perguntei a Daffy.
— Como foi o seu ano? — perguntei a Daffy.
O motorista fechou o porta-malas, acomodou-se ao volante e deu a partida. Eu e minha prima ficamos sentados o mais longe possível um do outro, no banco de trás. Entre nós havia uma inimizade que cresceu com o passar dos anos sem nenhuma razão evidente. Daffy olhava pela janela enquanto o carro atravessava a cidade. Era o fim de tarde e havia pouca gente nas ruas.
— Detesto a escola! Não sei por que tenho que ir para aquele lugar tão chato! Espero ser muito rica um dia e não precisar mais estudar.
E assim foi. Daffy tornou-se mais rica do que podia ter imaginado. Não teria apenas o dinheiro pelo pai, mas também uma polpuda quantia que recebera por ocasião do divórcio dos pais.
— Mas você não quer ser uma mulher burra — comentei.
— Detesto a escola! Não sei por que tenho que ir para aquele lugar tão chato! Espero ser muito rica um dia e não precisar mais estudar.
E assim foi. Daffy tornou-se mais rica do que podia ter imaginado. Não teria apenas o dinheiro pelo pai, mas também uma polpuda quantia que recebera por ocasião do divórcio dos pais.
— Mas você não quer ser uma mulher burra — comentei.
— Sei tudo de que preciso — ela retrucou sem olhar para mim.
Estávamos em junho e não havia muito movimento na cidade. Isso foi antes de as casas em Hamptons passarem a ser alugadas por vinte mil dólares durante o verão e as pessoas se espremerem nas praias como sardinhas.
Estávamos em junho e não havia muito movimento na cidade. Isso foi antes de as casas em Hamptons passarem a ser alugadas por vinte mil dólares durante o verão e as pessoas se espremerem nas praias como sardinhas.
— Já sei o bastante — Daffy frisou.
Se eu tivesse um pouco de visão naquela época, teria compreendido o que se passava com minha prima. O ódio pela mãe tinha desencadeado um processo muito doloroso em Daffy e ela já se considerava uma trágica heroína em sua própria vida.Prune, mesmo com toda a bebida, ainda era bonita; Daffy, porém, por um erro de destino, era sem graça e chata.
Se eu tivesse um pouco de visão naquela época, teria compreendido o que se passava com minha prima. O ódio pela mãe tinha desencadeado um processo muito doloroso em Daffy e ela já se considerava uma trágica heroína em sua própria vida.Prune, mesmo com toda a bebida, ainda era bonita; Daffy, porém, por um erro de destino, era sem graça e chata.
Permanecemos em silêncio durante o percurso até o Clube Hamptons. Como eu estava com se de de viver naquele ano! E só o pensamento de passar o verão com Prune abria um leque de possibilidades.
Mesmo ansioso, podia perceber por que Daffy se mostrava tão confusa. Sabia de antemão que Prune havia me comprado um Pontiac conversível vermelho. Talvez ela achasse que sua mãe estava louca, gastando tanto com um sobrinho.
Pouco me importava. Tinha deixado para trás a fazenda na Virgínia, onde meu pai acordava todos os dias às dez e caminhava emburrado em direção ao seu escritório, preparando-se para mais um dia de guerra infernal com os investidores de Wall Street.Meu avõ transformara uma plantação de milho numa fortun, mas ele tinha sido a última pessoa da família a ter alguma iniciativa para ganhar dinheiro. Prune seria uma exceção, porém isso só aconteceria anos após aquela tarde de junho. Em busca de privacidade, Prune havia comprado os vinte hectares de plantação de batata que cercavam sua propriedade; vinte e cinco anos depois; a terra velria dez milhões de dólares, que se juntariam aos outros dez milhões da herança do ex-marido.
O carro atravessou o portão do Clube Hamptons. Um caminho de flores bem cuidadas levava até a sede em estilo Tudor, orgulho da região e, principalmente, dos sócios do clube.
— O que é aquilo? — perguntei ao passarmos por algumas barricadas. Ao longe, novale, avistei uma construção vermelha e branca.
O carro atravessou o portão do Clube Hamptons. Um caminho de flores bem cuidadas levava até a sede em estilo Tudor, orgulho da região e, principalmente, dos sócios do clube.
— O que é aquilo? — perguntei ao passarmos por algumas barricadas. Ao longe, novale, avistei uma construção vermelha e branca.
— Ah... aquele é o estábulo — resmungou Daffy, fazendo caretas. Apesar de apreciar cavalos, ela não gostava do cheiro deles.
— Não sabia que criavam cavalos por aqui. — Quando olhei novamente para o estábulo, ele já estava ao longe, perdido entre as folhagens.
— Temos um derby também. — A voz de Daffy estava diferente, mais animada. Talvez ela gostasse da movimentação em torno do evento. — É o Grande Prêmio Hamptons. Vão participar cavalos do país inteiro e até da Europa.
Estacionamos ao lado da sede — uma enorme e luxuosa mansão. Não era à toa que se orgulhavam tanto dela.
Estacionamos ao lado da sede — uma enorme e luxuosa mansão. Não era à toa que se orgulhavam tanto dela.
O motorista desceu do carro e se dirigiu para a porta de Daffy. Consciente de sua posição social, minha prima relaxou no banco, esperando que o rapaz lhe abrisse a porta. O chofer, provavelmente nascido na região, cumpriu suas obrigações serviçais com maestria, como se gostasse daquele seu emprego subalterno. Evitei seu olhar e observei a pompa de Daffy diante do empregado. Por mais que meu pai fosse rico, nunca permitiria que eu ou minhas irmãs agíssemos com tanto desprezo com os empregados. Segui a figura desengonçada de Daffy até o interior do clube, onde as figuras masculinas próximas ao bar demonstravam já estar próximas de uma bebedeira, cada um querendo falar mais alto que o outro. O saguão de entrada era forrado com papel de parede, ainda como é hoje. Nas paredes ,carreiras de fotografias de campeonatos de golfe. Enquanto pisava sobre o tapete persa azul, caminhando na direção do salão de jantar, eu boservava os retratos de alguns sócios; eles representavam o ssessenta anos da entidade. Eram fotos amareladas de homens em ternos escuros e mulheres com vesitods longos, cada uma delas cum exemplo típico da evolução da moda e dos costumes.
Prune estava sentada ao lado de uma imensa janela. Ela nos viu entrar e acenou para que nos aproximássemos. Atravessamos um mar de mesas com toalhas de linho cor-de-rosa, arrumadas com a mais fina porcelana inglesa e decoradas com vasos de flores silvestsres. Daffy continuava carrancuda.
Prune levantou o rosto para que eu a beijasse.
— Olá, querido Ben — ela murmurrou enquanto me abraçava. Eu podia sentir o odor do álcool misturado ao perfume de violetas que minha tia tinha no vestido.
— Oi, Prune — respondi assim que ela me largou.
A força de seu abraço me alertou. Mesmo com seus problemas, Prune continuava uma mulher bonita; a sua pele tinha poucas rugas para os seus quarenta anos e os olhos claros deixavam transparecer a pureza de sua alma.
— O que conta de novo, Ben? — Prune puxou minha mão, não me deixando escolha a não ser sentar-me ao seu lado. Aquele gesto aparentemente casual deixou para Daffy a cadeira do outro lado da mesa.
Ao sentar-se Daffy olhou em volta à procura de rostos familiares. Agora percebo que Prune estava com vergonha da filha naquele instante. Era como se ela soubesse que havia falhado em sua educação.
— O tem atrasou — comentou Daffy sem ter nada mais propício para dizer. Brincava nervosamente com o cabelo, fazendo pequenos cachos com os dedos.
— Ah, é ? — murmurrou Prune sem interesse em detalhes tão insignificantes. Seus olhos passeavam pelo cardápio que o garçom lhe trouxera. — O trem parece que está sempre atrasando.
— O tem atrasou — comentou Daffy sem ter nada mais propício para dizer. Brincava nervosamente com o cabelo, fazendo pequenos cachos com os dedos.
— Ah, é ? — murmurrou Prune sem interesse em detalhes tão insignificantes. Seus olhos passeavam pelo cardápio que o garçom lhe trouxera. — O trem parece que está sempre atrasando.
— É por causa dessa gente que vem sempre para cá — Daffy explicou. — Elas sempre atrasam o trem.
— Que gente, querida? — indagou Prune olhando par o salão que começava a encher.
— Ah, mamãe será que você nunca percebe o que está acontecendo ao seu redor? — ela respondeu com desdém, num tom acima do normal.
Os olhos de Prune se encheram de lágrimas. Ainda segurava minha mão, e eu a apertei com carinho, ao que minha tia me agradeceu com um sorriso melancólico.
— Tudo na vida passa, Ben. É sempre assim... — Prune lutava para que as lágrimas não escorressem pelo rosto.
E eu, com minha ingenuidade, acreditei nas palavras dela. Todas aquelas fotografias nas paredes, cada uma retratando um momento dessa vida que é tão êfemera, todas elas tentavam nos convencer que éramos imunes às desgraças. O mundo sempre sofreria transformações, guerras começariam e terminariam, crises fiannceiras apareceriam e desapareceriam com o passar dos anos, mas nós — aqueles poucos escolhidos para sermos ricos — nós estaríamos sempre com o domínio da situação.
— Tudo na vida passa, Ben. É sempre assim... — Prune lutava para que as lágrimas não escorressem pelo rosto.
E eu, com minha ingenuidade, acreditei nas palavras dela. Todas aquelas fotografias nas paredes, cada uma retratando um momento dessa vida que é tão êfemera, todas elas tentavam nos convencer que éramos imunes às desgraças. O mundo sempre sofreria transformações, guerras começariam e terminariam, crises fiannceiras apareceriam e desapareceriam com o passar dos anos, mas nós — aqueles poucos escolhidos para sermos ricos — nós estaríamos sempre com o domínio da situação.
Prune trocou minha mão pelo copo à sua frente.
— Não acha que já bebeu demais, mãe? — Daffy perguntou com frieza.
Prune corou, ficando da cor dos cravos vermelhos da entrada. O garçom que se aproximava deu um passo para trás, percebendo a delicadeza da situação.
Ao recobrar a voz, minha tia limitou-se a dizer:
— Nunca permiti que você me falasse nesse tom, Daphne!
Daffy virou o rosto para o lado, como se esperasse um bofetão. Prune nunca espancara a filha, porém minha prima estava se exibindo para uma platéia que, embora discreta, observava o que acontecia ao seu redor.
Daffy virou o rosto para o lado, como se esperasse um bofetão. Prune nunca espancara a filha, porém minha prima estava se exibindo para uma platéia que, embora discreta, observava o que acontecia ao seu redor.
— Peça-me desculpas, Daphne! — Prune ordenou-lhe, muito longe de ser a mulher bêbada que todos pensavam que fosse.
— Não sou eu quem deve se desculpar — Daffy quase berrou para atrair ainda mais a atenção de todos no salão.
Nunca esqueci daquela cena patética. Nós três sentados e o garçom de pé ao lado da mesa, rígido como uma estátua. Eu olhava para a bandeja de prata como que pedindod desculpas por uma briga familiar.
— Você está desculpada, Daphne — disse Prune friamente — Agora já pode ir para casa. Pro favor, peça para o motorista vir nos buscar depois.
Daphne estava colada na cadeira, ainda em estado de choque por causa da atitude da mãe. Todos os esus amigos, e mesmo os pais deles, encontravam-se naquele salão, todos a observá-la.
— Prune ... por favor — murmurrei para tentar melhorar a situação.
Minha tia me olhava confusa, não mais com raiva da filha. Mas, antes que ela pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Daphne levantou-se num impulso e atravessou o salão em direção à porta.
Todos continuavam em silêncio. Os garçons tomaram a iniciativa de falar, aproximando-se das mesas e servindo o grupo de milionários. Mesmo se achando dona do mundo, aquela gente não saberia como acabar com o clima pesado do ambiente.
Todos continuavam em silêncio. Os garçons tomaram a iniciativa de falar, aproximando-se das mesas e servindo o grupo de milionários. Mesmo se achando dona do mundo, aquela gente não saberia como acabar com o clima pesado do ambiente.
— Por favor, Ben, vá atrás dela! Daphne deve estar perto do estábulo. É para lá que sempre vai quando brigamos.
Levantei-me a seguir o rastro de Daffy, consciente do interesse daquela pequena multidão de curiosos. Ao deixar a sede e sentir o ar frio da noite, olhei em volta à procura da construção vermelha e branca. Não foi difícil chegar até o estábulo, já que estava bem iluminado.
Do lado de fora da construção, um dos empregados polia esporaas sem muito entusiasmo. Fitou-me com indiferença ao perceber que alguém se aproximava. Entrei no estábulo e logo senti o cheiro do feno, reconhecendo o odor dos cavalos em suas baias.
Daffy tinha a cabeça encostada num animal castanho. Acariciava com vigor o cavalo, para frente e para trás; talvez isso a fizesse se sentir melhor.
Daffy tinha a cabeça encostada num animal castanho. Acariciava com vigor o cavalo, para frente e para trás; talvez isso a fizesse se sentir melhor.
— Daffy .... — murmurrei ao me aproximar dela.
— Meu nome não é Daffy, é Daphne! — ela gritou à beira da histeria. — Daphne! Daphne! Por que as pessoas ficam inventando apelidos tão estúpidos?
— As pessoas se esquecem que as crianças acabam crescendo e não rpecisam mais de apelidos infantis. — Senti-me muito adulto ao dar uma explicação dessas.
— Mamãe está com quarenta anos, e as pessoas ainda a chamam de Prune! Não percebem que ela não é mais um bebê? Você não sabia que "prune" é uma ameixa e os bebê s sempre são parecidos com essas ameixas pequenas?
— Não sabia, não — confessei.
O cavalo afastou a cabeça das mãos de Daffy. O animal devia ter ouvido algum movimento e se assustado.
— Não sabia, não — confessei.
O cavalo afastou a cabeça das mãos de Daffy. O animal devia ter ouvido algum movimento e se assustado.
— Sua mãe já chamou o carro, Daphne. Se não voltarmos logo ,ela vem nos procurar.
Ao pronunciar o nome de minha prima, a palavra soou estranha aos meus ouvidos. Dei-lhe as costas para esconder meu embaraço e, com o canto dos olhos , deparei com uma visão que parecia ser do outro mundo. Avistei um cavalo maravilhoso, diferente de tudo o que já tinha visto antes; era bege, imponente, de longe o cavalo mais alto od estábulo.
No entanto, não foi o animal que me afstou dos problemas existenciais de Daffy. Foi a garota que estava de pé ao lado dele. Tinha minha altura, cabelos lisos, escorriam até os ombros, fios dourados que pareciam irreais. Ela conversava com o cavalo enquanto suas mãos o escovavam compassadamente. Era uma figura que faria inveja a qualquer pintor renascentista, um exemplo de perfeição: o rosto anguloso na media certa; olhos verdes cor de esmeralda; a boca pequena, em forma de coração, parecia pedir beijos e carícias; os l´baios semi-abertos revelavam dentes brancos, alinhados.
Esqueci-me por completo de Daffy. A garota se aproximou de nós e me fitou com inocência. Em seguida, sacudiu a cabeça balançaando os cabelos dourados. Com elegância, ela passou ao nosso lado e saiu do estábulo.
Eu estava boquiaberto, sem palavras. O cavalo de Daffy relinchou e me trouxe de volta à realidade. Olhei para minha prima e encontrei novavmente aquele olhar de desdém.
— Ela não é para você. Veio aqui para Hamptons à procura de uma boa caça.
— Ela não é para você. Veio aqui para Hamptons à procura de uma boa caça.
"Caça" era o termo usado por aquelas mães que traziam suas filhas para praia à procura de algum marido rico. Elas começavam a perigrinação em Palm Beach, ainda durante o inverno, e subiam pela costa à medida que o clima ficava mais quente no litoral norte. Seguiam seu faro em busca de dinheiro, fosse em Sea Island, Hamptons ou Newport.
— Quem é ela? — perguntei entusiasmado. Afinal, eu era um garoto de dezessete anos e não tinha mais tempo para as crises de Daffy.
— É Tracy Egan. É melhor se calmar porque você não tem dinheiro suficiente nem para chegar perto dela. E, pelo jeito, nunca vai ter.
— É Tracy Egan. É melhor se calmar porque você não tem dinheiro suficiente nem para chegar perto dela. E, pelo jeito, nunca vai ter.
Vi o carro de Prune descendo a estrada e se aproximando do estábulo. Esqueci meus devaneios de adolescente e tornei a colocar os problemas de Daffy e Prune em primeiro lugar, abandonando, pelo menos naquel instante, minhas chances em relação a Tracy Egan.
— Você pode me levar até o clube, Ben? — Daffy perguntou-me no café da manhã. Ela estava de costas, admirando o jardim bem cuidado. Prune mantinha um jardineiro na propriedade, para que as plantas sempre recebessem o melhor tratamento.
— Você pode me levar até o clube, Ben? — Daffy perguntou-me no café da manhã. Ela estava de costas, admirando o jardim bem cuidado. Prune mantinha um jardineiro na propriedade, para que as plantas sempre recebessem o melhor tratamento.
— Claro, mas não pode ir com o motorista?
— Mamãe deu o dia de folga para o chofer — respondeu emburrada.
O café da manhã estava delicioso, como tudo, aliás, na casa de Prune. Charles, o mordomo negro que acompanhava minha tia desde os tempos áureos de Nova York, encarregava-se de todos os detalhes, não deixando nenhuma dor de cabeça para a patroa.
A sala de jantar ocupava quase toda a parte de trás da mansão. A mesa de pinho parecia ainda mais imponente aos primeiros raios de sol; as cortinas, todas abertas, permitiam que a claridade banhasse os tapetes feitos a mão.
A sala de jantar ocupava quase toda a parte de trás da mansão. A mesa de pinho parecia ainda mais imponente aos primeiros raios de sol; as cortinas, todas abertas, permitiam que a claridade banhasse os tapetes feitos a mão.
— Tudo bem, eu levo você — concordei finalmente.
— Ela vai estar lá — murmurrou com os olhos brilhando. Daffy parecia um animal que acabar ade fazer uma graça e esperava ser recompensado.
Um dia Daffy se transformaria numa mulher atraente , assim como todas as suas colegas de classe. Talvez não tão atraente quanto elas. Mas, naquela época, minha prima tinha o péssimo hábito de balançar os ombros e jogar a cabeça para frente, como uma lesma saindo da sua conhca.
— Quem? — indaquei, tentando parecer desinteressado.
— Você sabe... — disse me provocando. — Ela!
Obviamente eu sabia a quem Daffy se referia. Ainda não me esquecera daqueles olhos verdes ao lado do cavalo castanho. Ainda não me esquecera daqueles cabelos sedosos balançando sobre o rosto perfeito.
— Todos a querem — balbuciou jogando o guardanapo sobre o prato cheio de ovos mexidos.
— Todos a querem — balbuciou jogando o guardanapo sobre o prato cheio de ovos mexidos.
— E o que ela quer?
— Dinheiro — respondeu secamente. Daffy soltou uma gargalhada, no início discreta, quase igual ao risto que teria quando adulta. Mas, naquela manhã, a risada tornou-se estridente, quase levando-a de volta à infância. — Eu chamo isso de prostituição — ela quase gritou. — Que revoltante!
Em seguida levantou-se e me deixou à vontade para terminar minha refeição. Eu me sentia incrivelmente tranquilo ali, observando o trabalho do jardineiro aparando a grama.
Depois de deixar a revlva como um tapete, ele se agachou para procurar ervas daninhas que, de onde eu estava, pareciam microscópicas.
Depois de deixar a revlva como um tapete, ele se agachou para procurar ervas daninhas que, de onde eu estava, pareciam microscópicas.
Não entendi a reação de Daffy quanto ao possível casamento de Tracy Egan. Até Prune desposara por interesse, e um interesse maior do que eu e minha prima poderíamos sequer imaginar. A própria Daffy poderia seguir por esse mesmo caminho. Naquela época, eu mal me importava com o que aconteceria ou não com minha prima. Talvez a diferença entre Prune e Tracy era que minha tia não tivera como única escolha casar por dinheiro/ a fortuna de seu pai já seria suficiente para ela ter uma vida feliz. E Daffy — parecia óbvio — herdaria também o dinheiro do pai, apesar de ele já ter tido outros filhos com a nova esposa. Ser rico e desejar aumentar o patrimônio através de um casamento poderia até ser considerado sábio; mas, se Tracy contasse apenas com beleza e pouco dinheiro, o resutlado prático talvez não fosse recompensador. Entretanto, eu não conseguia pensar na maravilhosa Tracy Egan de maneira tão prática e objetiva. Depois de vê-la no estábulo na noite anterior, precisei reformular meu conceito de beleza. Eu sabia que não encontraria outra mulher tão bela quanto ela.
A empregada abriu lentamente a porta par ferificar se eu havia terminado de comer. Levantei-me deixando-a com os pratos e talheres sujos.
Daffy já me esperava ao lado do conversível.
— Como você demora para comer! — resmungou.
Ela estava com o traje de montaria: botas pretas sobre a calça jeanas e uma camisa branca um tanto masculina. Suas roupas não poderiam ser menos apropriadas, fazendo-a parecer um menino, um menino nada atraente. Os cabelos estavam espremidos sob o chapéu preto de veludo e eu não duvidava que o arranjo logo se desfizesse.
Com uma expressão de homem bem experiente — no caso ,era apenas três anos mais velho — , tratei de ignorá-la.
— Entre! — ordentei. — Você está me atrasando para um encontro.
— Estou te atrasando é para o provável "fora" que você vai levar! — Daffy fez o favor de me esclarecer enquanto se jogava no banco do Pontiac.
A garagem, com lugar para quatro carros, ficava nos fundos da mansão. Apesar de ter o dia livre, o motorista lavava o automóvel cinza de Prune. Ele morava no quarto que havia sobre a garagem.
Nas paredes, do lado de fora, minha tia haiva plantado pessegueiros. Mas os frutos estavam sofrendo com o ar frio da noite.
Dirigi até a entrada da casa e, em seguida, pela estrada de terra que atravessava a plantação de batatas. Sentia-me o mais feliz dos homens naquela manhã; eu era jovem e me considerava razoavelmente atraente. Levava a vida despreocupado e não conseguia me imaginar de outro jeito. Como podemos ser tão ingênuos acreditando que o destino sempre nos será favorável!
— Você vai se jogar aos pés dela? — Daffy gracejou, apoiando o braço esquerdo sobre o banco.
— Quem sabe ela não resista aos meus encantos — sugeri.
Naquela época ainda era possível dirigir por vastos campos,cheios de flores e árvores, observar os pássaros que se alinhavam sobre o s fios telefônicos, sem nunca cruzar com outro carro na estrada.
— Todos os homens mais velhos já se jogaram aos pés dela. — continuou Daffy. Acho que minha prima já sentia, por antecipação, um enorme prazer com a minha fracassada corte.
— Todos os homens mais velhos já se jogaram aos pés dela. — continuou Daffy. Acho que minha prima já sentia, por antecipação, um enorme prazer com a minha fracassada corte.
Cruzamos o portão do clube, passamos por alamedas frondosas até encostarmos ao lado do estábulo. Daffy pulou do carro antes mesmo de eu desligar o motor.
Cruzamos o portão do clube, passamos por alamedas frondosas até encostarmos ao lado do estábulo. Daffy pulou do carro antes mesmo de eu desligar o motor. Observei os dois empregados tentarem acalmar um puro-sangue. Um dos homens corria em círculos puxando o cavalo, enquanto o outro procurava, em vão, colocar a sela sobre o animal. Em meio àquele corre-corre Tracy Egan saiu do estábulo montada em seu cavalo.
Ela desviou do grupo , aproximando-se do meu carro. Daquela vez, ao invés de se afastar, Tracy parou ao meu lado e me cumprimentou.
Perdi a voz; conseguia apenas manter os olhos fixos naquela figura perfeita que sorria para mim. Ela montava muito bem, confiante que o animal a obedeceria em todas as manobras.
O cavalo também parecia confiar em sua dona e , por isso, não se incomodava em ser conduzido, ao contrário do animal arisco que estava sendo domado.
— Gosta de cavalos? — ela me perguntou em seguida.
Onde estava a minha voz? Talvez perdida nas profundezas do meu embaraço. Eu não conseguia falar. Senti que todas as minhas esperanças desapareciam.
— G-gosto... — finalmente respondi. O cavalo de Tracy afastou-se um pouco do carro. Ela sorriu e puxou as rédeas com mais força.
— Que bom! Será que podemos cavalgar juntos um dia desses?
—C-claro que sim! — concordei de imediato. Eu sabia que Prune mantinha dois cavalos no estábulo. Saí do carro temendo realmente me jogar aos pés daquela musa.
— Sou Benjamin Harrimann — apresentei-me.
— Eu sei. Tracy me olhava tão calma. E o fato de ela já me conhecer deixou-me ainda mais nervoso.
— Como você sabe?
— Todo mundo por aqui conhece a sra. Duke.
Senti um arrepio percorrer cada músculo do meu corpo. Prune era rica e a lembrança da "caça" voltou-me à mente. A fortuna que um dia eu herdaria do meu pai não se comparava à de minha tia. Ela entendeu o turbilhão que se passava em minha cabeça. A mãe de Tracy certamente fizera uma "pesquisa de mercado" e a alertara sobre as melhores "mercadorias".
— Não se preocupe — ela murmurrou.
— Você não está na lsita.
— Que lista? — indaguei, tentando parecer indiferente.
— A lista da minha mãe. — Ela olhou em volta e acrescentou: — Mas ainda assim podemos ser amigos.
— Claro! Não me importo com tal lista, e, de qualquer maneira, eu também sou um pouco rico.
— Mas não o suficiente — Tracy concluiu com tristeza. — Você não tem dinheiro o bastante para estar naquela lista.
Então, nem sei bem como, ficamos amigos. Tinhamos um interesse em comum: cavalos. Tracy já havia cavalgado, ou iria cavalgar na maioria dos cavalos daquele estábulo, aqueles cujos donos eram do sexo masculino. Usei um dos cavalos de Prune. Não era nada de especial, porém gostava muito dele. Agora, lembrando aquela época, fico pensando de minha afeição pelo animal não era porque ele me dava a oportunidade de ficar ao lado de Tracy.
O cavalo também parecia confiar em sua dona e , por isso, não se incomodava em ser conduzido, ao contrário do animal arisco que estava sendo domado.
— Gosta de cavalos? — ela me perguntou em seguida.
Onde estava a minha voz? Talvez perdida nas profundezas do meu embaraço. Eu não conseguia falar. Senti que todas as minhas esperanças desapareciam.
— G-gosto... — finalmente respondi. O cavalo de Tracy afastou-se um pouco do carro. Ela sorriu e puxou as rédeas com mais força.
— Que bom! Será que podemos cavalgar juntos um dia desses?
—C-claro que sim! — concordei de imediato. Eu sabia que Prune mantinha dois cavalos no estábulo. Saí do carro temendo realmente me jogar aos pés daquela musa.
— Sou Benjamin Harrimann — apresentei-me.
— Eu sei. Tracy me olhava tão calma. E o fato de ela já me conhecer deixou-me ainda mais nervoso.
— Como você sabe?
— Todo mundo por aqui conhece a sra. Duke.
Senti um arrepio percorrer cada músculo do meu corpo. Prune era rica e a lembrança da "caça" voltou-me à mente. A fortuna que um dia eu herdaria do meu pai não se comparava à de minha tia. Ela entendeu o turbilhão que se passava em minha cabeça. A mãe de Tracy certamente fizera uma "pesquisa de mercado" e a alertara sobre as melhores "mercadorias".
— Não se preocupe — ela murmurrou.
— Você não está na lsita.
— Que lista? — indaguei, tentando parecer indiferente.
— A lista da minha mãe. — Ela olhou em volta e acrescentou: — Mas ainda assim podemos ser amigos.
— Claro! Não me importo com tal lista, e, de qualquer maneira, eu também sou um pouco rico.
— Mas não o suficiente — Tracy concluiu com tristeza. — Você não tem dinheiro o bastante para estar naquela lista.
Então, nem sei bem como, ficamos amigos. Tinhamos um interesse em comum: cavalos. Tracy já havia cavalgado, ou iria cavalgar na maioria dos cavalos daquele estábulo, aqueles cujos donos eram do sexo masculino. Usei um dos cavalos de Prune. Não era nada de especial, porém gostava muito dele. Agora, lembrando aquela época, fico pensando de minha afeição pelo animal não era porque ele me dava a oportunidade de ficar ao lado de Tracy.
Fiquei sabendo mais sobre a mãe dela, em parte através de Prune; em parte, pelas fofocas que corriam soltas pelo clube. Por onde quer que Tracy passasse deixava uma trilha de admiradores que não lhe poupavam elogios. No entanto ,assim que a mãe da moça aparecia em cena, os sorrisos se transformavam em murmúrios de tristeza, pois a maioria deles sabia que não estava na lista da sra. Egan.
Aquele seria o primeiro Grande Prêmio Hamptons. Com o passar dos anos, o estábulos cresceu para abrigar um número cada vez maior de competidores. De alguma maneira, os planos matrimoniais de Tracy Egan se misturaram ao destino daquele grande prêmio.
Ela gostava de passar dos dias no estábulo. E, consequentemente, eu também. E assim, junho deu lugar a julho e logo veio agosto, cercado pelo clima de competição que se aproximava.
Não era segredo para ninguém que a mãe de Tracy a trouxeram ali para arrumar marido. A gartota tinha apenas quinze anos, mas logo estaria com dezesseis, e a fortuna dos Egan ia de mal a pior. Fiquei sabendo que sua mãe havia sido uma menina bem-nascida, embora tivesse se casado em "circunstâncias suspeitas", também soube que o casamento não dera certo e o marido desaparecera, deixando a esposa com pouco dinheiro. Era uma fortuna modesta, mas não aguentaria mais de um verão como aquele, quando ela não media despesas.
Casamento por interesse não era motivo de vergonha naquela época, já que as moças não tinham alternativas profissionais e lhes restava apenas sonhar com um bom enlace matrimonial. E eu sabia qe não havia um homem em Hamptons que não desejasse casar-se com Tracy Egan. Ela, por sua vez, era convidada para compromisssos a que eu não tinha acesso. Se Prune oferecia um jantar para os amigos, obviamente eu era convidado a partilhar do evento com uma geração mais velha; contudo, Prune não podia me levar aos jantares e recepções para as quais era convidada e às quais Tracy comparecia.
— Como você consegue aturar aquela gente? — perguntei-lhe um dia.
— Como você consegue aturar aquela gente? — perguntei-lhe um dia.
— É fácil — respondeu cheia de ternura. — Eles não esperam nada de mim...
— Algum deles já tentou te beijar?
— Não — respondeu, virando o rosto para que eu não pudesse ver a sua expressão. — Bem, nem todos tentaram. E se tentassem, eu conseguiria impedi-los.
Fiquei calado durante alguns instantes. Diante do meu silêncio, ela comentou:
— Até você me faz esse tipo de pergunta, Ben!
Eu estava apaixonado por Tracy Egan e ela devia saber disso. Mas tínhamos um acordo, um acordo de sermos amigos, e era isso o que me impedia de tomar qualquer iniciativa.
— Só pensei que...
— Pensou o quê? — ela me interrompeu.
— Pensei que você não precisasse se submeter a esse tipo de situação.
Tracy soltou a escova com que penteava o cavalo deixando-me sozinho no estábulo. Esperei alguns minutos, imaginando se ela iria ou não voltar. Quando percebi que Tracy não voltaria, fui atrás dela. Encontrei-a ao lado da cerca.
— Desculpe.
— Desculpe.
— Também peço desculpas — ela murmurrou sem olhar para trás. De repente, Tracy se voltou para mim.
— Você não entende.
— Estou tentando, de verdade ...
Seus olhos estavam cheio de lágrimas.
— Não sou inteligente, Ben. — Deu-me as costas para que eu não pudesse ver as lágrimas.
Coloquei as mãos sobre seus ombros; ela pareceu relaxar com o contato físico. Então me olhou e repetiu:
— Não sou inteligente. — Respirou fundo. — Se não se é inteligente, Ben, é preciso fazer o que os outros mandam você fazer.
Continuamos bem próximos, os olhos chorosos de Tracy implorando que eu a apoiasse.
— Se vamos continuar sendo amigos, Ben, você tem que me deixar fazer o que é melhor para mim.
Exatamente naquela tarde eu compreendi o clichê que lera tantas vezes noss livros. "Meu coração ficou despedaçado". Senti uma dor enorme me consumindo, arrancando toda a energia e vivacidade que senti naquele verão. Mas achei que pior do que não ter o amor dela seria não vê-la nunca mais. Por isso concordei em não me intrometer nos "negócios" da mãe de Tracy.
Ela colocou a mão em meu ombro.
— Por favor, Ben, seja meu amigo...
E continuamos amigos. No entanto, depois daquele dia, eu precisei me esforçar muito para esconder meu amor. Como era difícil anquelas noites quentes e enluaradas asssitir a Tracy Egan e seus "namorados" passeando em carros conversíveis. Esperançosos por conquistar a garota mais cobiçada da região, todos eles se comportavam de maneira exemplar, mas Tracy não parecia entusiasmada com nenhum dos rapazes; com o passar do tempo, então, um por um eles iam se afastando e desparecendo de cena. Tracy ficou conhecida como a "princesa de gelo", e aqueles que nada conseguiam dela sempre a mencionavam com amargura.
Acho que por isso eu fiquei mais confiante, afinal, talvez o velho Benjamin ainda pudesse ter alguma chance. Pelo menos, eu estava acima daquela competição idiota. Mas eu devia ter percebido que a rainha-mãe depois de "investir" tanto dinheiro, não voltaria a Baltimore de mãos abanando.
Acho que por isso eu fiquei mais confiante, afinal, talvez o velho Benjamin ainda pudesse ter alguma chance. Pelo menos, eu estava acima daquela competição idiota. Mas eu devia ter percebido que a rainha-mãe depois de "investir" tanto dinheiro, não voltaria a Baltimore de mãos abanando.
Dez dias antes do grande prêmio, eu saía da casa de Prune para encontrar Harry Boetchner pela primeira vez. Ele descarregava o caminhão do pai ao lado da garagem. Achei Harry o homem mais atraente que havia visto. Durante o verão, qualquer homem para mim significava uma competição pessoal. E, quando Harry se aproximou carregando a entrega de carne, vi como era alto; tinha ombros largos e olhos brilhantes. Apesar de toda a masuclinidade, faltava-lhe uma certa beleza. Mas tal detalhe não impedia que todas as mulheres, até as mais velhas, parasssem na rua e o desejassem com os olhos.
Àquela altura eu nem fazia ideia de que Harry era um i´dolo local, herói do time de futebol. Havia os ricos — nós — e o resto. Eram como duas raças diferentes que não se misturavam.
Àquela altura eu nem fazia ideia de que Harry era um i´dolo local, herói do time de futebol. Havia os ricos — nós — e o resto. Eram como duas raças diferentes que não se misturavam.
— Onde quer que ponha isto? — Harry me perguntou.
— Lá — apontei para a porta da cozinha.
Ele passou por mim sem me encarar.
Fui até o carro e descobri que o caminhão de Harry bloqueava minha passagem. Buzinei freneticamente. Ele não se apressou em voltar.
— Não posso sair! — gritei enquanto ele se aproxiamava.
Harry apenas olhou para mim. Como se não tivesse nada mais para fazer na vida, lentamente ele ligou a chave de ignição e deu partida. Uma eternidade depois, saiu do meu caminho.
— Idiota! — praguejei.
Quando cheguei ao estábulo, Tracy já estava treinando seu cavalo — Campeão, era como o chamava. Ao me ver, acenou para mim.
— Ei Ben, não somos lindos?
E como! A perfeição feminina e a perfeição animal em harmonia. Deus devia estar inspirado no dia que criou aqueles dois. Desci do carro e corri até a cerca.
Tracy veio ao meu encontro.
— Vamos ganhar a competição!
— Já apostei em você, Tracy.
Naquele instante, os olhos dela pareceram congelar através de mim; era como se eu não existisse. Virei-me para procurar o que a atraía tanto. Então avistei Harry Boetchner descendo a colina em direção à sede. Ele também tinha os olhos fixos em Tracy. Havia uma ligação entre os dois, e e utinha ficado de fora, o estábulo havia ficado de fora, tudo mais fora esquecido.
O que eu identificara no rosto de Tracy podia ser desejo. Até amor. A definição não importava, e sim o fato de Harry ser o primeiro homem a despertar aquele sentimento em Tracy.
Aos poucos, ela voltou à realidade. Harry estava parado com os pacotes nos braços. Senti-me traído exatamente quando achava que meu caminho ficara desimpedido. Campeão parecia inquieto. (Estaria também com ciúme?) Tracy piscou diversas vezes, como que saindo de um transe hipnótico.
— Quem é aquele cara? — perguntou-me num tom de voz que eu nunca ouvira.
— Ninguém — respondi displicente. — É só o garoto do açougue.
Agora precebo que existem emoções que não podemos controlar. Tracy e Harry estavam destinados um para o outro. Seus corpos suplicavam uma aproximação. Era tão óbvio; porém, na ingenuidade dos meus dezesssete anos , aquele primeiro contato não me prenunciou o turbilhão que estava por vir.
Harry havia percebido o que todos nós estávamos cansados de ver: a extraordinária beleza de Tracy. Ele passou a acompanhar como uma sombra os passos dela. Harry era um fantasma loiro a espreitar nossos passeios a cavalo, nossas caminhadas pela praia. Dava um jeito de fazer as entregas no clube sempre que Tracy estava por perto. À noite, na cidade, Harry ficava de pé encostado numa parede, seguindo Tracy com os olhos.
Qualquer outra garota teria ridicularizado a situação. Mas Tracy parecia incrivelmente tímida toda vez que Harry surgia em seu campo de visão. Seu relacionamento com a mão havia se tornado insuportável. Tracy passou a sentir-se obrigada a sair com os homens escolhidos pela senhora Egan. E, com sua frieza, ela acava descartando, um a um , os pretendentes.
Era a última semana de verão, a semana que antecederia o grande prêmio. Certo dia Tracy me puxou para o lado e disse:
— O verão está no fim.
— Está, sim. — concordei com algo que, par mim, parecia óbvio. Acrescentei: — E a competição está aí.
Ela passou a mão nervosamente pelos cabelos. Tinha um olhar desesperado.
— Não quero que o verão termine!
Sem saber ao certo o que dizer, comentei:
— Estão dando uma festa na praia. Quer ir comigo?
Tracy e eu nos mantivemos, durante todo o verão, longe dos outros jovens da nossa idade. Éramos dois amigos que partilhavam a mesma sensação melancólica em relação àquelas férias.
— Vamos lá — ela concordou.
Então, em lugar de irmos até a sede, entramos no meu carro e nos dirigimos para o litoral. Na praia, avisamos duas fogueiras distintas. Do lado direito, a festa dos ricos, a nossa festa. Do lado esquerdo, um pouco mais afastada, estava a fogueria maior, com os jovens da cidade, os pobres. Estacionamos o carro e nos dirigimos para a nossa turma.
A nossa presença era tão inusitada que nem trocamos cumprimentos com as moças e rapazes em torno do fogo. Bebi umas duas cervejas em silêncio. Tracy parecia inquieta; andava de um lado para o outro à beira-mar. Quando ela finalmente decidiu voltar para unto da turma, avistamos Harry Boetchner ao longe.
— Ei, Tracy! — alguém gritou. — Lá está a sua sombra!
— Vamos lá — ela concordou.
Então, em lugar de irmos até a sede, entramos no meu carro e nos dirigimos para o litoral. Na praia, avisamos duas fogueiras distintas. Do lado direito, a festa dos ricos, a nossa festa. Do lado esquerdo, um pouco mais afastada, estava a fogueria maior, com os jovens da cidade, os pobres. Estacionamos o carro e nos dirigimos para a nossa turma.
A nossa presença era tão inusitada que nem trocamos cumprimentos com as moças e rapazes em torno do fogo. Bebi umas duas cervejas em silêncio. Tracy parecia inquieta; andava de um lado para o outro à beira-mar. Quando ela finalmente decidiu voltar para unto da turma, avistamos Harry Boetchner ao longe.
— Ei, Tracy! — alguém gritou. — Lá está a sua sombra!
Aquele era um momento muito especial para ela , e ninguém pôde deixar de notar. Tracy ficou imóvel, olhando para o vulto que devia ser Harry Boetchner. Todos estavam em absoluto silêncio. E, como eu imaginei que um dia iria acontecer, Tracy começou a caminhar em direção a Harry.
Senti um pânico que nunca antes havia experimentado. Podia ter me levantado e corrido atrás dela; em vez disso continuei sentado ao lado do fogo temendo uma humilhação. Tracy estava na metade do caminho para a outra fogueira quando Harry percebeu que ela vinha ao seu encontro. Assim, ele também deixou seu grupo, e os dois se encontraram na escuridão.
Senti um pânico que nunca antes havia experimentado. Podia ter me levantado e corrido atrás dela; em vez disso continuei sentado ao lado do fogo temendo uma humilhação. Tracy estava na metade do caminho para a outra fogueira quando Harry percebeu que ela vinha ao seu encontro. Assim, ele também deixou seu grupo, e os dois se encontraram na escuridão.

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