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quarta-feira, 18 de março de 2026

 4

Aquela noite, quando Tracy Egan abandonou nossa fogueira para se juntar a Harry, senti-me dominado por um pânico que só viria a compreender anos depois. Meus amigos me olhavam com compaixão. Sentia-me o pior dos homens, tentando entender opor que estava tão mal ao perder algo que nunca me pertencera. Os dois grupos, nós e os garotos locais, tratamos de nos agasalar, e, às primeiras gotas de chuva, todos correram para os carros. 
No princípio, era uma chuva fina; então, nuvens espessas tamparam a Lua e as estrelas. Quando cheguei em casa, encontrei a mansão às escuras, até o quarto de Daffy. Havia luz apenas na saleta, e eu sabia o que significava: Prune estava bebendo.
Segui a luz e logo ouvi a música que vinha da vitrola de 78 RPM; composiçõs românticas que Prune sempre ouvia e adorava colecionar. Aqueal era uma das excentricidades de minha tia; ela podia passar horas debaixo da chuva percorrendo lojas de discos antigos em Greenwich Village. Naquela noite, Prune e a cantora Bessie Smith dividiam suas mágoas.
— "Você não é ningúem até que alguém..." — murmurou Bessie Smith quando entrei na sala.
Prune costumava dar muitas festas naquele salão, mas havia algum tempo ninguém dançava sob aqueles lustres de cristal da Boêmia. Em vez de casais rodopiando ao som de valsas, encontrei Prune bailando sozinha ao lado de um candelabro.
Observei a figura esbelta que se movimentava ao lado da porta. Parou de dançar e ficou me encarando. Do lado de fora, trovões e relâmpagos acrescentavam magia àquela cena.
— Tempos difíceis esses — murmurei.
— Espero que não conte para ninguém.
Eu sabia o que ela queria dizer com aquele pedido. "Ninguém" significava Daphne. Na verdade, não havia o que dizer para Daffy. Ter uma mãe alcoólatra não é boa coisa para uma criança.
— Fique sossegada, Prune.
Bessie Smith terminava sua canção e , de repente, a sala ficou iluminada por um relâmpago. 
Acho que , naqueles poucos instantes em que o clarão tomou conta da slaa, Prune percebeu a tristeza que havia dentro de mim. Pois, mesmo dominada pelo álcool, ela se recompôs e colocou o copo sobre a mesa.
— Não sei se posso ajudá-lo hoje, querido - murmurou em voz calma e terna.
— Não sei se alguém pode me ajudar — confessei.
Continuamos de pé, um olhando para o outro, enquanto a tempestada envolvia a mansão. Finalmente eu consegui dizer:
— O que é mais um coração despedaçado, afinal?
Prune pareceu ficar arrepiada. Colocou os braços em volta do corpo para se proteger.
— Não existe nada mais importante que o amor. — Ela achou graça do próprio comentário e começou a rir. — Mais uma filosofia da bebedeira!
Prune estava de costas para mim, então virou-se.
— Sinto vergonha desse meu comportamento, Ben, mas acho que eu vou chorar.
Eu estava com dezessete anos na época. Se Prune começasse a chorar, nem fazia idéia do que eu iria fazer. Em vez de partilhar daquela melancolia que pairava o ar, fiz a primeira coisa que me veio à cabeça:
— Que se dane tudo, Prune! Vamos tomar um drinque e dançar!
Os relâmpagos inundaram a sala, alegrando mais a nossa dança.
— Eu devia te dizer alguma coisa sensata, dar um conselho de mulher madura. Ah, Ben... Queria tanto te dizer que isso que você está sentindo vai passar... Mas eu não me encaixo nesse papel de conselheira.
— Então faça o que estiver ao seu alcance. Continue dançando comigo.
Dançamos até a chuva acalmar. Só parávamos para Prune tomar um gole. Rodopiamos até que ficasse exausta. Podia senti-la se apoiando em meus ombros e percebi que era hora de ela ir se deitar.
— Venha comigo, Prune, hora deir para a cama.
Ela ria feito criança.
— A gente nunca vai dizer nada desta nossa noite.
— Claro que não ... —prometi.
Não foi difícil subir as escadas, embora as pernas de minha tia estivessem um tanto quanto babmas. Deitei-a na cama e a cobri, sem nem sequer tirar-lhes os sapatos. 
Não consegui dormir. Da minha cama, vi o sol nascer sobre o campo de batatas; fiquei imaginando o que podia ser pior do que ficar bêbado constantemente. Talvez encarar o destino e ador qeu ele pode nos trazer e eu apenas começava a sentir as feridas da vida...
Depois que o sol naceu, fui para o esábulo na epserança de encontrar Tracy.
Campeão estava `Pa espera da dona. Fiz-lhe alguns carinhos.
— Desculpe, amigo, acho que nós dois levamos um bolo.
Naquela manhã, foi um dos empregados que exercitou o cavalo. Coloquei a sela no vacalo de Prune e cavalguei quase toda a manhã.
Havia alguma coisa diferente no ar; não era am inha amizade com Tracy nem o verão que logo terminaria. Era algo dentro de mim, uma melancolia que, aos poucos, eu aprendia a entender e até apreciar. 
Ao voltar para o estábulo, estava exausto. Entrei no Pontiac e dirigi em alta velocidade para a casa de Prune. Os empregados trabalhavam em silêncio para não acordar a patroa, que dormia demais após as bebedeiras.
Fui direto para o meu quarto e caí em sono profundo. 
Quando acordei, já era noite novamente. A casa continuava silenciosa. Desci e encontrei Prune encolhida ao lado da lareira.
— Sinto muito — ela murmurou.
Não sabia se minha tia se desculpava pelo comportamento da noite anterior ou pelo que eu podia estar sentindo.
— Psiu! — Coloquei o nidicador sobre os lábios. — Não vamos espalhar nosso segredo!
Prune abriu um sorriso sincero.
— Ah, Ben, eu adoro você!
— Eu sei!
— Não sei se isso é motivo de alegria — ela disse antes de tomar um gole de chá. — Sabia que somos muito parecidos?
— Acho que vou conseguir sobreviver, apesar dessa revelação.
Aproximei-me e vi que era licor, e não chá, que havia dentro da xicará.
— A gente nunca sabe se é forte, até que a vida nos exige uma resposta imediata — declarou Prune.
De repente, percebi que eu fedia a cavalo e suor.
— Importa-se de eu beber um pouco também?
— Tem certeza?
— Não se preocupe — resumugnei pegando a xícara.
— Ah, já faz muito tempo que parei de me preocupar — ela disse olhando para o fogo na lareira. — Percebi que sempre me importava com as coisas erradas. E as coisas com que não me preocupei acabaram me traindo.
Servi-me de um drinque qualquer e sentei-me ao lado dela. Fiquei uns minutos observando a bebida no copo até sentir vontade de conversar.
— Tracy Egan ficou com Harry Boetchner ontem à noite.
Não sei o que esperava ouvir de Prune; talvez algum consolo, ou talvez alguma desaprovação. Mas ela se limitou a murmurar:
— Pobre garota...
Odiei aquele comentário, e Prune deve ter sentido a minha revolta.
— Você também estava apaixonado por ela, eu suponho.
— Acho que sim.
— Isso logo vai passar. Essa garota significa encrenca.
Sorvi um gole, mal acreditando naquelas palavras.
— Prune, logo você me vem com essa conversa? 
Ela sorriu:
— Tudo bem, querido. Não te dou mais conselhos e você não me olhe mais com essa cara de desprezo.
A empregada apareceu, anunciando que o jantar estava pronto. Porém, em vez de ir para a mesa, minha tia preferiu voltar para a cama.
— Pretendo dormir cedo — ela se desculpou.
Daphne parecia ter se mudado para a casa de alguns amigos até que sua mãe voltasse ao normal. Portanto, jantei sozinho naquela sala imensa, sentindo o odor da minha pele suja. Para minha surpresa, depois de toda a bebida da noite anterior, eu estava com um enorme apetite.
Após o jantar, tomei banho e troquei de roupa. Saí de casa para dar um passeio e refletir sobre as amarguras da vida. 
Era uma noite fresca. O campo ainda cheirava a chuva e o outono que se aproximava. Dirigi sem destino pela estrada e acabei rumando para o norte. Depois das fazendas, fui dar numa pradaria onde já havia cavalgado com Tracy. Naquela noite o caminho lamacento parecia querer me impedir de ir adiante; tive até dúvidas qeu o Pontiac subisse a rampa que se delineava à minha frente. Percebnedo que não valia a pena correr o risco, estacionei e saí andando com as mãos nos bolsos.
Caminhei sobre a grama ainda úmida, sentindo o ar frio da noite. Fui até uma colina, de onde Tracy e eu havíamos avistado toda a região de Hamptons. As árvore ao meu redor começaram a balançar com o vento; as estrelas brilhavam ignorando minha tristeza. Observei as cidades próximas com suas pequenas luzes, apreciei a terra que, anos depois, deixaria Harry mioionário. Contornei a colina, pensando no verão que logo terminaria e me levaria de volta a Virgínia, para o que quer que estivesse me aguardando em casa.
No escuro, tomei conhecimento de outros sons além dos barulhos da natureza. O vento encobriu minha aproximação.
No princípio, recusei-me a acreditar no que estava testemunhando. A voz de Tracy, um murmúrio que eu teria reconhecido em qualquer lugar, sua bela voz, implorando:
— Por favor, por favor...
O sangue gelou em minhas veias. Fiquei paralisado. Então ouvi Harry. Aquela voz eu só havia escutado uma vez:
— Eu te amo, querida. Te amo. Te amo. Te amo.
Era uma declaração apaixonada. Se eu me mexesse, certamente eles me veriam. E, para minha surpresa, ao recobrar totalmente os sentidos, em vez de me afastar, me aproximei ainda mais.
Eles pareciam uma criatura mística, meio-homem, meio-mulher, as duas metades entrelaçadas, o bronze da pele dele em contraste com a alvura da pele dela. Tracy estava embaixo, as pernas agarradas ao corpo dele.
— Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo — Harry repetia . 
E Tracy continuava implorando:
— Por favor. Por favor. Por favor...
O vento de repente parou de soprar . O mundo parecia intocado, a não ser por aquelas duas criaturas à minha frente. Eu devia ter me aproximado demais. Harry nunca chegou a me ver; Tracy, no entanto, arregalou os olhos por sobre os ombros do companheiro: ela me olhava.
Tracy procurou se controlar. Harry continuava com seu refrão:
— Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
Apesar de Tracy não responder verbalmente, seu corpo a t raiu e o institnto animal falou mais alto. Os corpos passaram a se mover em uníssono, e , em seguida, ela fechou os olhos e gritou de prazer, junto com Harry.
Foi quando fugi dali. Ao alcançar o carro, percebi que tremia. SEntei-me atrás do volante dizendo a mim mesmo que precisava girar a ignição e me afastar o mais rápido possível. Não porque eu soubesse que Harry me veria e desceria a colina para me espancar — e essa era mesmo uma possibilidade amedrontadora — , e sim porque eu sentia medo pelo que havia testemunhado, uma cena longe do romantismo dos livros, próxima do primitivismo do ser humano.
Com as mãos trêmulas girei a chave na ignição. Mantive os faróis apagados até me acalmar e estar bem distante daquele lugar. Acendi um cigarro e refleti sobre o ocorrido. Pensei que nunca mais veria Tracy Egan, pelo menos não teria coragem de encará-la. Aquela nossa cumplicidade quando ela me viu espionando, somada aos aconteciemtnos da s últimas vinte e quatro horas, me dizia que eu não era mais o garoto ingênuo que viera passar o verão com a tia.
Voltei para a mansão de Prune. Esfreguei o corpo com vigor, como se tivesse sido eu que tinha deitado naquela relva. Em seguida enfiei-me nos lençóis limpos da cama e adormeci. Sonhei muito, com todos que conhecia: minha primeira enfermeira, minha primeira namorada, minha mãe, meu pai, Daffy, Prune, e , é claro, Tracy Egan. Mas em meus sonhos, assim que me aproximava daqueles rostos familiares, eles sumiam. E nenhuma daquelas pessoas era quem eu esperava que fosse. Quando desci para tomar café, Prune já estava trabalhando em seu escritório. Levantou os olhos do papel e me cumprimentou. Nas entrelinhas, percebi que eu não devia fazer nenhum comentário sobre os dois dias anteriores.
— Bom dia, Prune — Entrei na sala e beijei-lhe o rosto. Observei a lista que ela analisava e comentei: — Tentando ficar mais rica?
Minha tia me encarou.
— Pelo que sei, Ben, a vida não tem sentido sem dinheiro e amor. — Frisou as últimas palavras.
— E saúde — acrescentei.
Prune me fitou por um longo instante, como se eu tivesse dito a coisa mais sobrenatural do mundo.
— É, isso também — finalmente concordou e voltou par as contas.
Deixei-a com os seus números e fui tomar o café da manhã. Enquanto comia, li o jornal que mais tarde seria comprado por Prune.
Algum tempo depois, ela se juntou a mim.
— Você saiu de novo ontem à noite?
Estranhei aquele comentário, pois minha tia nunca fora de contorlar a vida de ninguém. Olhei por sobre O Clarim e respondi:
— É, saí sim.
Serviu-se de uma xícara de café e sentou-se ao meu lado.
— Fiquei preocupada com você.
— Não precisava. Eu só fui dar um passeio de carro.

Mas o verão ainda não havia terminado. Depois daquela tempestade, não choveu durante muitas semanas. A terra ficou árida, os pastos secaram. Todos os dias eu ia ao estábulo, certo de que encontraria Tracy, porém acabava cavalgando sozinho. Campeão estava sendo treinado por um dos empregados do clube. 
As fofocas logo se espalharam, e não era difícil adivinhar que o boato começara à beira da nossa fogueira, na noite da festa. E assim Tracy deixou de ser bem-vista no clube. Aos poucos as pessoas pararam de falar sobre ela, de querer sair com ela. Não que os homens não a desejassem mais, apenas não queriam mais se casar com Tracy Egan.
O Dia do Trabalho estava próximo. Dois ou três dias antes do grandee prêmio, a arquibancada e as cercas começaram a ser montadas. Eu estava aliviado por não ter me encontrado com Tracy depois daquela noite. Mas não poderia evitá-la na competição. Tracy adorava Campeão e sabia que ela ganharia a medalha.
Na noite que antecedeu o Grande Prêmio Hamptons, o clube estava bastante movimentado. Prune havia deciddido dar uma olhada nos preparativos e Daphne viera com a mãe. As duas me convidaram para jantar; achei indelicado da minha parte recusar. Entretanto, na metade da refeição, percebi que aquele seria outros dos confrontos entre mãe e filha, e uma testemunha só serviria para atrapalhar. Por isso, pedi desculpas antes da sobremesa e saí para uma caminhada.
Não estava tão escruto quanto naquela noite que eu flagrara Harry e Tracy. Afastei-me das luzes e dos festejos e tomei a direção do estábulo. Havia luzes lá dentro. Qaundo me aproximei, vi um dos empregados sair com um balde. 
No interior do estábulo, os cavalos pareciam irrequietos, como se soubessem o que aconteceria no dia seguinte. Acariciei todos os cavalos que conhecia, desejtando a todos boa sorte. Foi quando percebi a presença de Tracy.
Ela estava sentada na baia de Campeão, encostada na parede de madeira. O animal, prevendo a vulnerabilidade da dona, mantinha-se em estado de alerta. Ela me olhou fixamente. Não havia mais paixão, apenas uma dor que eu não conseguia decifrar. Isso também eu levaria anos para compreender; acabaria me vendo no espelho e encontraria aquele mesmo olhar de frustração. Ficamos em silêncio durante alguns minutos. Era como se fôssemos cúmplices de alguma tragédia. Finalmente, Tracy, de sua posição quase fetal ao lado da parede , implorou:
— Por favor, Ben, faça amor comigo. Por favor...
Não fiquei chocado, apenas continuei parado, mudo.
— Por favor, não sinta pena de mim, Ben.
— Saia daí, Tracy — ordenei sem reconhecer a firmeza das minhas palavras.
Tracy levantou-se e veio até onde eu me encontrava.
— Adeus, Campeão — murmurou ao beijar o animal.
Em seguida, peguei a sua mão e saímos do estábulo. No chão ao lado da terceira árvore, ao som das risadas dos milionários, nós fizemos amor.
Enquanto desamassávamos as roupas que nem mesmo havíamos tirado, Tracy deu-me as costas. Eu sabia que ela estava chorando. Tetnei colocar a mão sobre seu ombro, mas ela me repeliu.
— Eu não sou uma qualquer, Ben. Eu não sou...
— Eu sei — assegurei-lhe. Abracei-a mesmo contra sua vontade. Beijei-lhe os cabelos dourados. — Eu sei...
— Vou me casar, Ben — disse sem me encarar.
Foi um choque imaginar Tracy e Harry casando.
— Com ele? — Minha voz reveleou toda a surpresa que sentia.
— Não, não com Harry.
E assim ela me deixou aquela noite. Aquela fora nossa despedida.
Uma semana antes do grande prêmio,eu telefonei para a casa dela. Depois de muita esepra, alguém atendeu.
— Por favor, a Tracy está ? É Benjamin Harriman.
— Elas foram embora.
— Embora?
— É. Saíram ontem. Eu só estou fazendo a faxina.
Só ouvi falar de Tracy Egan no outono, numa pequena nota do New York Times. Aos dezesseis anos, ela se casara em Baltimore.








































































































































































































































































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