5
Agora, 25 anos depois, sua filha se encontrava em meus braços. Movimentou a cabeça exatamente como a mãe costumava fazer. Continuei abraçando-a até que sua respiração voltasse ao normal.
Ela contempalva o jardim, as dunas e o oceano a distância
— Eu devia saber que isso era bom demais — murmurou Helen.
Meus pensamentos estavam longe e , pela primeira vez em muitos anos, sneit que meu corpo respondia a um contato físico. Se aquel abraço persistisse, não me responsabilizaria pelos meus atos. Por isso afrouxei o braço e dei uns passos para trás.
As emoções me confundiam. Eu parecia estar numa máquina do tempo, viajando ao passado, para aquela noite quando eu e Tracy fizemos amor. Dei as costas para sua filha; precisava colocar as ideias em ordem.
Aos poucos, minha pulsação voltou ao normal.
Assim qeu mevirei, encontrei-a já recomposta. Sob a luz do sol, a semelhança entre mãe e filha se acentuava ainda mais: Helen era quase uma duplicata de Tracy.
— Onde estão os empregados? — perguntei-lhe.
— Harry despediu todos eles — respondeu a garota olhando para a casa. — Nós também íamos embora.
Consultei minhas lembranças, as conversas que tivera com Harry. Nada indicava que ele fosse fechar a casa e abandonar a região.
— Quando vocês se casaram?
— Ontem — respondeu-me secamente.
— Onde?
— Maryland.
O sol começava a baixar no horizonte. As janelas da mansão refletiam a luz dourada, a mesma cor do cabelo de Helen e de Tracy.
— E depois vieram de carro até Hamptons?
— Isso mesmo.
Havia duas semanas que eu vira Harry pela última vez. Mesmo que nossos destinos — a sua fortuna e a minha decadência — fossem opostos, nós tínhamos algo em comum. Não apenas por termos amado a mesma garota, e sim porque conhecíamos muiteo bem as pessoas e o local onde morávamos.
— Pode parecer estranho — ela tentou se explicar. — Harry era ... impulsivo.
Se eu precisasse descrever Harry Boetchner com uma única palavra, nunca teria usado "impulsivo". Anos atrás, o jovem Harry seguira com os olhos a mim e a Tracy — a mulher que ele amava — em nossos passeios pela cidade.
Não, definitivamente "impulsivo" não era o termo certo para Harry; "charmoso", talvez; "poderoso", muito provavelmente; e até "perigoso", de certa maneira (deixara inimigos do outro lado do mundo e alguns dos habitantes locais detestavam seus condomínios).
Meu ceticismo devia estar estampado no rosto, pois Helen continuou se explicando:
— Não sei nada sobre os empregados. Só sei que Harry não queria mais viver nesta casa.
Voltei os pensamentos para Caleb. Se essa moça era mesmo viúva de Harry, então ela merecia uma explicação sobre o que havia acontecido ao marido.
— Alguém já ligou? — indaguei curioso.
— O telefone tocou, mas não atendi. Foi o que Harry disse para fazer.
— Quando ele falou isso?
— Quando saiu.
Se Harry morrera antes do raiar do dia, logo devia ter saído de casa no meio da noite. Uma atitude pouco cabível para um recém-casado. Acho que Helen adivinhou minhas suspeitas.
— Sei o que você pensa. Precisa entender ... não é físico.
— O que está tentando me dizer? Vocês dois não são casados?
Ela novamente balançou os cabelos. Dessa vez dei-lhe as costas e apreciei a mansão.
— Somos.
— Por que casaram?
— Porque ele me pediu em casamento.
Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelas gaivotas na praia. Dentro da casa, o telefone começou a tocar. Ao perceber que Helen não tomava a iniciativa de ir atender, eu mesmo fui até a sala.
— Alô? — atendi.
— O que é que está acontecendo aí? — questionou Magda, autoritária.
Com o fone na mão, virei-me para as janelas e observei Helen.
— Muita coisa, Magda.
— O que está querendo me dizer com isso?
— Ainda não tenho muita certeza. Mas estamos com uma história bem quente nas mãos!
— Como assim?
A viúva de Harry me olhava através do vidro. Seria imaginação ou ela podia realmente me ouvir?
— Não posso falar agora — desculpei-me. — A gente se vê mais tarde.
Antes de desligar, ainda pude ouvir os gritos de Magda:
— Fale com os empregados! Fale com eles e veja se descobre alguma coisa!
— Eu devia saber que isso era bom demais — murmurou Helen.
Meus pensamentos estavam longe e , pela primeira vez em muitos anos, sneit que meu corpo respondia a um contato físico. Se aquel abraço persistisse, não me responsabilizaria pelos meus atos. Por isso afrouxei o braço e dei uns passos para trás.
As emoções me confundiam. Eu parecia estar numa máquina do tempo, viajando ao passado, para aquela noite quando eu e Tracy fizemos amor. Dei as costas para sua filha; precisava colocar as ideias em ordem.
Aos poucos, minha pulsação voltou ao normal.
Assim qeu mevirei, encontrei-a já recomposta. Sob a luz do sol, a semelhança entre mãe e filha se acentuava ainda mais: Helen era quase uma duplicata de Tracy.
— Onde estão os empregados? — perguntei-lhe.
— Harry despediu todos eles — respondeu a garota olhando para a casa. — Nós também íamos embora.
Consultei minhas lembranças, as conversas que tivera com Harry. Nada indicava que ele fosse fechar a casa e abandonar a região.
— Quando vocês se casaram?
— Ontem — respondeu-me secamente.
— Onde?
— Maryland.
O sol começava a baixar no horizonte. As janelas da mansão refletiam a luz dourada, a mesma cor do cabelo de Helen e de Tracy.
— E depois vieram de carro até Hamptons?
— Isso mesmo.
Havia duas semanas que eu vira Harry pela última vez. Mesmo que nossos destinos — a sua fortuna e a minha decadência — fossem opostos, nós tínhamos algo em comum. Não apenas por termos amado a mesma garota, e sim porque conhecíamos muiteo bem as pessoas e o local onde morávamos.
— Pode parecer estranho — ela tentou se explicar. — Harry era ... impulsivo.
Se eu precisasse descrever Harry Boetchner com uma única palavra, nunca teria usado "impulsivo". Anos atrás, o jovem Harry seguira com os olhos a mim e a Tracy — a mulher que ele amava — em nossos passeios pela cidade.
Não, definitivamente "impulsivo" não era o termo certo para Harry; "charmoso", talvez; "poderoso", muito provavelmente; e até "perigoso", de certa maneira (deixara inimigos do outro lado do mundo e alguns dos habitantes locais detestavam seus condomínios).
Meu ceticismo devia estar estampado no rosto, pois Helen continuou se explicando:
— Não sei nada sobre os empregados. Só sei que Harry não queria mais viver nesta casa.
Voltei os pensamentos para Caleb. Se essa moça era mesmo viúva de Harry, então ela merecia uma explicação sobre o que havia acontecido ao marido.
— Alguém já ligou? — indaguei curioso.
— O telefone tocou, mas não atendi. Foi o que Harry disse para fazer.
— Quando ele falou isso?
— Quando saiu.
Se Harry morrera antes do raiar do dia, logo devia ter saído de casa no meio da noite. Uma atitude pouco cabível para um recém-casado. Acho que Helen adivinhou minhas suspeitas.
— Sei o que você pensa. Precisa entender ... não é físico.
— O que está tentando me dizer? Vocês dois não são casados?
Ela novamente balançou os cabelos. Dessa vez dei-lhe as costas e apreciei a mansão.
— Somos.
— Por que casaram?
— Porque ele me pediu em casamento.
Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelas gaivotas na praia. Dentro da casa, o telefone começou a tocar. Ao perceber que Helen não tomava a iniciativa de ir atender, eu mesmo fui até a sala.
— Alô? — atendi.
— O que é que está acontecendo aí? — questionou Magda, autoritária.
Com o fone na mão, virei-me para as janelas e observei Helen.
— Muita coisa, Magda.
— O que está querendo me dizer com isso?
— Ainda não tenho muita certeza. Mas estamos com uma história bem quente nas mãos!
— Como assim?
A viúva de Harry me olhava através do vidro. Seria imaginação ou ela podia realmente me ouvir?
— Não posso falar agora — desculpei-me. — A gente se vê mais tarde.
Antes de desligar, ainda pude ouvir os gritos de Magda:
— Fale com os empregados! Fale com eles e veja se descobre alguma coisa!
A garota tinha sumido de vista. Ainda segurando o fone, tentei raciocinar. Harry havia se casado em Maryland no dia anterior, voltara para casa com sua jovem esposa, despedira todos os empregados, e então ... O resto não fazia muito sentido; por que ele tinha saído no meio da noite para ver Campeão, seu cavalo?
Helen surgiu na porta.
— Quem era? — perguntou-me
— Minha editora.
Ela estremeceu dos pés à cabeça.
— Acho que essa vai ser uma história e tanto — disse num sussurro.
Quase todas as peças do quebra-cabeça não se encaixavam: Helen ficara em estado de choque ao saber da morte do marido; havia chorado no terraço; e ali, tremendo, ela nem se interessava em saber do corpo, não perguntava qualquer detalhe da morte.
— O que você está fazendo? — indagou ao me ver discando.
— Ligando para a polícia.
— Por quê? — elevou o tom de voz.
— Eles precisam tomar conhecimento de que você existe.
A moça não fez mais comentários enquanto eu completava a ligação.
O sobrinho de Calebe atendeu e passou o telefone para o tio.
— Diabo! Como você anda sabendo das coisas antes da polícia?
— Sabendo do quê ? — perguntei, achando que ele se referia à garota.
— Sobre Harry.
— O quê sobre Harry?
Outro silêncio, dessa vez mais longo.
— Você jogou verde?
— Quer fazer o favor de me explicar do que você está falando?
— Não foi o cavalo! — Caleb já parecia resignado com o fato.
— Então, como ele morreu?
Ouvi uma risada estridente do outro lado da linha.
— Com um objeto contundente, é óbvio!
A mulher de Harry se movimentou pela sala .E estava pálida.
— Ainda está aí, Ben?
— Em carne e osso — eu respondi, observando a viúva.
— Se você vai escrever sobre o acidente, é melhor conhecer todos os fatos.
— Acho que você esta´se esquecendo de um detalhe muito importante, Caleb.
— Como assim?
— Harry deixou uma viúva — falei sem tirar os olhos de Helen.
Foi a vez de Caleb emudecer. Finalmente, balbuciou:
— Você tem certeza?
— Pelo menos é o que parece.
— Já se encontrou com ela?
— Está aqui do meu lado.
— E onde vocês estão?
— No local mais propício para encontrar uma viúva: na casa dela, na casa de Harry.
— Não saia daí! — ordenou-me. — Já estou indo. Desligou o telefone na minha cara.
Enquanto Caleb não chegava, Helen contou-me como havia conhecido Harry. Já tinha escurecido, mas nenhum de nós tomou a iniciativa de acender as luzes. Serviu-me uma bebida qualquer e nos acomodamos nos sofás de veludo, orgulho de Harry.
— Harry e meu pai eram amigos, você sabia? — perguntou-me na penumbra da sala.
— Não. Eu nunca conheci seu pai.
— Mas conhecia a minha mãe.
— É — admiti engolindo alguns goles. — Conheci Tracy há muitos anos ... Virei o rosto, temendo demonstrar minha tristeza.
— Mamãe e papai, você quer dizer.
— Não, só sua mãe — retruquei.
— Ah, sim. E ela ainda está viva, você não sabia?
— Não. Perdemos contato já faz algum tempo.
— Como Harry. Ele também perdeu contato com meus pais. Mas os 3 se encontraram, por acaso, num restaurante em Washington. Papai era político. Acho que Harry estava cuidando de alguns negócios na cidade. Imagine que eles esbarraram no restaurante!
Tentei visualizar a cena. Harry em Washington resolvendo alguma negociata ou talvez enriquecendo com alguma exploração imobiliária; um restaurante caro e aconchegante: Harry entrando pela porta e trocando lhares com a mulher que havia amado havia 25 anos. Fitei Helen, perguntando-me se Tracy Egan continuava tão bela quanto na adolescência. Mas e quanto ao marido dela? Era difícil acreditar que Harry tinha conhecido o pai daquela garota.
— Bem, para resumir — prosseguiu Helen —, os 3 se encontraram depois de muitos anos e depois do jantar, meus pais levaram Harry para casa. Moramos em Virgínia. Você já foi para a Virgínia?
— Já — respondi sem muito entusiasmo. — Eu cresci em Virgínia.
— Então você sabe que as visitas que aparecem tarde da noite, na maioria das vezes, acabam pernoitando.
— Sei, sim.
"Principalmente quando essas pessoas estão bêbadas". No entanto, mantive o comentário para mim mesmo. Essa nova possibilidade, a cena dos 3 bêbados, acrescentou mais versosimilhança à narrativa. O que Tracy teria pensado ao reencontrar Harry? Ele não era mais o garotão loiro e bronzeado que ela amara aos 15 anos. Mas ainda era atraente. E muito rico.
— Meu pai é bem mais velho — explicou a garota, acrescentando outras cores à centa que eu criava na mente. — Ele fica cansado com frequência. Por isso, acho que, logo que chegaram em casa, papai deve ter ido dormir, deixando minha mãe e Harry mais à vontade para falar dos velhos tempos.
Estava tão escuro na sala qeu eu mal podia ver a silhueta de Helen. Ao me levantar para acender as luzes, ela pediu:
— Por favor, vamos ficar no escuro. Voltando à história, Harry dormiu no quarto de hóspedes e acabamos nos encontrando no café da manhã.
Eu havia sentido na pele a surpresa do pobre Harry. Fiquei imaginando se Tracy havia mencionado a filha.
— Então, foi assim que eu e Harry nos conhecemos. Ele voltou diversas vezes a Washington e, sempre que podia, vinha nos visitar. Às vezes era um jantar, um almoço e até um final de semana. E
foi assim que acabamos nos conhecendo melhor.
Esperei que ela completasse o raciocínio.
— E começamos a nos amar.
— Faz tempo isso?
— Uns 3 meses.
Não sei bem o que eu esperava ouvir —um ano, seis meses. Mas 3 meses queria dizer o começo daquele verão, e isso acrescetnava uma nova faceta ao Harry que conheci: esforcei-me para lembrar se e le havia mudado nos últimos tempos e cheguei à conclusaão de que Harry era o mesmo de anos atrás. Em suasbreves permanências em Hamptons — entre um negócio e outro — , nada em seu comportamento sugeria um relacionemanto amoroso. Outro detalhe curioso me ocorreu: se ele havia realmente reencontrado Tracy Egan, não me contara.
E eu pesava que o tinha conhecido bem. Desde a sua volta, 2 anos antes, costumávamos jantar ou beber juntos quase toda a semana. E, com essa reviravolta, percebei que existira outro Harry, o Harry que não se abria comigo. Surpreendi-me comm a minha revolta. Mas, procurando me ater à realidade dos fatos, eu e Harry só tinhamos falado de Tracy uma vez.
— Uma paixão um tanto quanto repentina — concluí em meio à penumbra, num tom de voz talvez cruel demais.
— Não foi bem assim. Eu expliquei que não foi físico. Ele só... — Helen hesitou antes de prossseguir: — Ele só me pediu em casamento.
— Quando?
— Semana passada.
Precisei me esforçar para não rir.
— Sei o que você está pensando, que eu me casei sem...
— ... sem amar Harry — completei.
Helene levantou-se sem dizer nada e caminhou até o bar. SEnti o perfume dela quando passou ao meu lado. Reconheci o aroma. Era muito parecido com o que Tracy costumava usar, e talvez ainda usasse.
Serviu-se de uma bebida e comentou:
— Eu acho que não é da conta de ninguém o motivo do meu casamento com Harry.
Concordei com um aceno de cabeça.
Ela passou por mim deixando outro rastro de perfume.
— Mesmo que algumas pessoas não concordem com o fato, eu me casei com ele e ponto final.;
— Casou ontem.
— Isso mesmo.
— Depois vocês vieram para cá e Harry foi ver o cavalo — acrescente isarcástico.
Helen corou, indignada com minha audácia.
— Não. Ele recebeu um telefonema, uma chamada de negócios. Pediu desculpas, mas precisava ir à cidade.
— E deixou você aqui, sozinha — frisei a útlima palavra — Na noite de núpcias...
— Não tenho medo de ficar sozinha — declarou e ficou em silêncio.
Terminei a bebida e servi-me de outra dose, sentindo-me à vontade, com odas outras vezes em que estivera ali com Harry. No entanto, Harry estava morto, sua viúva se encontrava no sofá ao meu lado ,bebericando calmamente. Quinze minutos se passaram; estávamos tão absorvidos em nossos próprios pensamentos que mal ouvimos a sirene que se aproximava a distância.
Ia me levantando para abrir a porta quando fui surpreendido pelo barulhos de um copo espatifando-se no chão. Helen não devia ser muito cuidados a ou se assustava com facilidade. O uísque se espalhou pelo tapete persa. Se m dramas. Harry não poderia mais reclamar do valor daquela obra de arte oriental.
Helen, mais preocupada do que eu , jogou-se de joelhos no chão e começou a recolher os cados de vidro. Parecia apavorada. Quase em seguida, levantei-a num gesto carinhoso.
E pela segunda vez tive que conter o meu desejo. Foi preciso um esforço sobre-humano para não agarrara aquela figura tão familiar, a imagem que dominou meus sonhos durante tantos anos.
— Você só precisa dizer a verdade —murmurei, referindo-me à polícia.
Se eu a estivesse espancado, sua reação não eseria muito diferente. Helen ficou lívida, como se fosse desmaiar.
—A-acho que devíamos abrir a p´porta ... — ela gaguejou.
Caleb já estava de pé na etnrada da casa quando atendemos à campanhia. Havia esfriado e nuvens escuras encobriam as estrelas.
— Boa noite — cumprimentou o policial ajustando a calça e entrando como se fosse o dono da casa. Fechei a porta logo depois que ele adentrou o hall.
— Você não sabe nem metade da história — comentei.
Caleb ficou imóvel no corredor, talvez supondo qeu eu fosse me explicar ali mesmo.
— É melhor você ouvir a viúva.
Devo ter pronunciado aquilo com sarcasmo, pois Caleb não conteve o comentário mordaz:
— Você parece estar bem por dentro do caso.
— Por mim, você pode achar o que quiser.
Caleb apreciou os quadros e a decoração sofisticada.
— Harry sabia como gastar os seu dinheiro.
Concluí que Caleb nunca havia pisado na mansão antes ... Interessante, considerando o fato de Harry ter me contado que os dois haviam sido tão amigos quando crianças.
— Ele era muito rico, e o dinheiro consegue realizar muitos sonhos.
Soei amargo; eu ainda não tinha superado a perde daqueles 400.000 dólares que herdara.
Helen nos ouviu chegar. Ergueu os olhos e movimentou a cabeça naquele gesto característico de sua mãe.
— Meu Deus! — o policial murmurou surpreso.
Caleb, ao contrário de mim e de Harry, não se apaixonara por Tracy,m mas certamente se lembrava dela.
— Incrível mesmo, não é? — sussurrei.
Recompondo-se , Caleb aproximou-se de Helen e transmitiu-lhe os pêsames da polícia de Hamptons.
— O sr. Harriman já me forneceu todos detalhes — ela disse ao aceitar o cumprimento do oficial.
Caleb fitou-me com ar de acusação. Sacuid os ombros; não havia por que esconder qualqeur detlhae à viúva.
— Eu sinto muito, sra. Boetchener, mas vou precisar lhe fazer algumas perguntas.
— Se preferirem ficar a sós ... — sugeri, enquanto, sem cerimônia, me servia de outro drinque.
A reação dos dois foi oposta.
— Se não se importa, Ben...
— Não, por favor fique — insistiu a víuva, o que deixou Caleb cheio de suspeitas.
Seus olhos encaravam Helen, pousraam em mim e voltaram para ela.
— Tudo bem. Mas, depois das perguntas, a senhora vai precisar me acompanhar até a delegacia.
Helen voltou a tremer; sentou-se no sofá, com os braços cruzados, e observou o tapete molhado de uísque.
— Desculpe o incômodo, é apenas rotina — Caleb tentou tranquiliza-la.
Terminei de me servir e acomodei-me no outro sofá. Caleb continuava de pé, agarrando o quepe com as mãos.
— Não sei bem como começar... — ele murmurou sem graça.
Caí na risada. Talvez meu descontrole se devesse à bebida, talvez à estranha sensação de ter encontrado a miragem de Tracy Egan. Caleb me olhou furioso. A garota me encarava como se a tivesse traído.
— Desculpe. Foi um dia exaustivo e cheio de surpresas. — Tomei mais um gole e fiquei quieto.
— Harry era seu amigo — Caleb me lembrou a título de repreensão.
— É, ele era. Ou pelo menos eu pensava que fosse. Agopra, nem tenho certeza se o conhecia bem.
Nos minutos seguintes, ficamos a ouvir o barulho do vento nas janelas.
— Até agora, o único fato concreto ´pe que seu marido está morto, sr.a Boetchner.
Uma estranha maneira para se começar um discurso oficial, pensei. Helen fitava o polkical incrédula, como se ninguém a tivesse chamado pelo nome dde casada antes.
Tirei o copo das mãos dela e acrescentei uma dose de uísque e algumas pedras de gelo. Helen me agradeceu com um aceno de cabeça.
— Estávamos casados há pouco tempo —a viúva explicou para Caleb. Ela parecia mais amedrontada do que quando estávamos sozinhos. — Para ser mais exata, nós nos casamos ontem.
— Sinto muito.
Caleb me mostrava umna faceta desconhecia, já que parecia realmente abalado. Comecei a perceber por que ,dentre tantas pessoas da região, ele havi sido eleito xerife.
— Talvez fosse melhor que a senhora mesma me explicasse algumas coisas.
— Obrigada pelo interesse. O senhor não prefere se sentar?
— Muito agradecido. —Ele se sentou na extremidade do sfoá, com a barriga sobre as pernas e o quepe no chão.
Helen repetiu a história que me ocntara horas antes. Não havia muyito o que dizer; no entanto, Helen esqueceu-se de um importante detalhe. Omitiu o fato de ela e Harry não terem dormido juntos. Ao fim da narrativa, aqueles enormes olhos verdes me impoloraram para não revelar seu segredo.
Eu já vivera tempo suficiente entre os ricos para entender o que aquele "pequeno" detalhe poderia significar. Pelo que sabia, Harry só possuía um parente vivo: a mãe, que havia se mudado da cidade anos atrás. Mas, se o casamento não se consumara e os possíveis herdeiros descobrissem, o caso provavelmente acabaria na justiça.
Após o relato da moça, Caleb tornou a dizer que sentia muito e elvantou-se em seguida. Helen também se ergueu do sofá conservando uma postura altiva.
Eu estava bêbado demais para confiar nos maus instintos. Bêbados costumam passar vexamens e dizer bobagens; mas , pelo que Prune havia me contado e pela minha própria experiência, eu sei que são nesses momentos que podemos ter uma visão mais clara da realidade.
Enaquele dia eu tinha a nítida impressão de estar assistindo a uma representação teatral recheada de troca de gentilezas e boas maneiras.
Foi quando Caleb tornou a me surrpeender. Realmente, aquela era uma noite atípica.
— Foi assassinato — comunicou-nos num tom acusador. Estranhei que ele quisesse comentar o caso com a garota.
As mãos de Helen tremiam.
— Deve haver algum engano ... — ela murmurou.
Mas, antes que Helen pudesse terminar o raciocínio , Caleb já balançava a cabçea em sinal de negativa.
— Não existe engano nenhum, sra. Boetchner. — Agora Caleb voltava a falar como um policial frio e competente.
— Seu marido foi assassinado na bia de Campeão, o cavalo dele. E o crime aconteceu ontem à noite.
— Alguma coisa está muito errada — afirmei.
Caleb encarou-me indignado. Eu me sentia flutuar numa nvuem de álcool.
— Campeão é um cavalo enorme. Você o viu hoje, Caleb.
— E daí?
— Daí que Harry também era corpulento. — Notei que a garota ainda tremia. — Você pode imaginar alguém tentando acertar Harry com um instrumento pontiagudo ... — Helen derrubou outro copo. — Enquanto o cavalo estava na baia? — terminei.
O policial observou o drinque derramado. Esperei que ele a ajudasse a limpar o tapete, assim como eu faizera instantes antes, mas Caleb continuou imóvel. Helen nos fitou por alguns segundos e então desmanchou-se em lágrimas. A interpretação ideal para uma viúva desolada: havia derrubado o copo estrategicamente para interromper a converasa. No entanto, ao perceber que nenhum de nós dois tinha se incomodado com o acidente, ela logo mudou de tática.
Caleb e eu sentamos e observamos a pobre criatura gemer até quase perder o fôlego com as lágrimas. Nossa anfitriã concluiu que o truqe falhar; só demorou alguns segudnos para se recompor.
— Se eu tiver que ir com o senhor para reconhecer ... — ela murmurou encarando Caleb, como se eu não estivesse no mesmo cômodo.
— ... reconhecer o corpo —compeltou o xerife para ajudá-la.
— É ... Farei o que for preciso. Será que podemos sair agora? Não sei se vou aguentar isso por muito tempo.
— Sim, claro, sra. Boetchner — ele concordou formalmente, levantando-se.
Caminhamos os três até a porta.
— Você ainda vai acabar afogado numa garrafa —Caleb repreendeu-me.
— Quem sabe ...
— Então é melhor vir comigo. Não está em condições de dirigir.
— Sim senhor. — E bati continência.
— Escute. Você devia ter mais respeito pelos outros.
A bronca foi bem dada. Corei e acabei concordando com Caleb. Em seguida, caí na risada.
— Veja como fala comigo, Caleb. Pelo menos na frente dos outros.
O xerife me encarou. Por um instante, achei que ele ia me bater.
— Harry era seu amigo, Ben.
— E seu também — fiz questão de lembrá-lo.
Caleb sacudiu os ombros.
— É, mas isso já faz muito tempo ... Harry e eu ... — Ele não terminou a frase. Acabei se msaber o que havia acontecido entre os dois . E concluiu: — Já estou farto de Harry Boetchner, vivo ou morto.
Ele parecia ressentido com o amigo assassinado. Talvez fosse por causa da casa, da fortuna de Harry, que parecia ainda tão "viva" ao nosso redor.
— Posso muito bem me cuidar sozinho —comuniquei a Caleb no hall de entrada. Esperávamos Helen, que tinha ido até seu quarto.
A moça surgiu diante de nós usando um maravilhoso casaco de pele cinza. Devia ter custado muito dinheiro. Aparentemente, Tracy Egan fizera um "bom" casamento, pois Helen ainda nã otinha colocado as mãos no dinheiro de Harry.
— Você nem consegue ficar de pé — Caleb berrou atrás de mim.
— Já dirigi muito mais bêbado do qeu isto — retruquei, encerrando o assunto.
Helen estava quase no topo da escada, brilhando como uma estrela de cinema naquele casaco cor de champanhe. Usava uma echarpe preta de seda em volta do cabelo.
— Você não gosta dela — o xerife afirmou num sussurro.
— Não.
— Por quê?
— Ela parece muito certinha ... E, na vida real, as coisas não são tão limpas.
— Isso não é real.
Caleb aproximou-se da viúva e a acompanhou até a porta.
Helen surgiu na porta.
— Quem era? — perguntou-me
— Minha editora.
Ela estremeceu dos pés à cabeça.
— Acho que essa vai ser uma história e tanto — disse num sussurro.
Quase todas as peças do quebra-cabeça não se encaixavam: Helen ficara em estado de choque ao saber da morte do marido; havia chorado no terraço; e ali, tremendo, ela nem se interessava em saber do corpo, não perguntava qualquer detalhe da morte.
— O que você está fazendo? — indagou ao me ver discando.
— Ligando para a polícia.
— Por quê? — elevou o tom de voz.
— Eles precisam tomar conhecimento de que você existe.
A moça não fez mais comentários enquanto eu completava a ligação.
O sobrinho de Calebe atendeu e passou o telefone para o tio.
— Diabo! Como você anda sabendo das coisas antes da polícia?
— Sabendo do quê ? — perguntei, achando que ele se referia à garota.
— Sobre Harry.
— O quê sobre Harry?
Outro silêncio, dessa vez mais longo.
— Você jogou verde?
— Quer fazer o favor de me explicar do que você está falando?
— Não foi o cavalo! — Caleb já parecia resignado com o fato.
— Então, como ele morreu?
Ouvi uma risada estridente do outro lado da linha.
— Com um objeto contundente, é óbvio!
A mulher de Harry se movimentou pela sala .E estava pálida.
— Ainda está aí, Ben?
— Em carne e osso — eu respondi, observando a viúva.
— Se você vai escrever sobre o acidente, é melhor conhecer todos os fatos.
— Acho que você esta´se esquecendo de um detalhe muito importante, Caleb.
— Como assim?
— Harry deixou uma viúva — falei sem tirar os olhos de Helen.
Foi a vez de Caleb emudecer. Finalmente, balbuciou:
— Você tem certeza?
— Pelo menos é o que parece.
— Já se encontrou com ela?
— Está aqui do meu lado.
— E onde vocês estão?
— No local mais propício para encontrar uma viúva: na casa dela, na casa de Harry.
— Não saia daí! — ordenou-me. — Já estou indo. Desligou o telefone na minha cara.
Enquanto Caleb não chegava, Helen contou-me como havia conhecido Harry. Já tinha escurecido, mas nenhum de nós tomou a iniciativa de acender as luzes. Serviu-me uma bebida qualquer e nos acomodamos nos sofás de veludo, orgulho de Harry.
— Harry e meu pai eram amigos, você sabia? — perguntou-me na penumbra da sala.
— Não. Eu nunca conheci seu pai.
— Mas conhecia a minha mãe.
— É — admiti engolindo alguns goles. — Conheci Tracy há muitos anos ... Virei o rosto, temendo demonstrar minha tristeza.
— Mamãe e papai, você quer dizer.
— Não, só sua mãe — retruquei.
— Ah, sim. E ela ainda está viva, você não sabia?
— Não. Perdemos contato já faz algum tempo.
— Como Harry. Ele também perdeu contato com meus pais. Mas os 3 se encontraram, por acaso, num restaurante em Washington. Papai era político. Acho que Harry estava cuidando de alguns negócios na cidade. Imagine que eles esbarraram no restaurante!
Tentei visualizar a cena. Harry em Washington resolvendo alguma negociata ou talvez enriquecendo com alguma exploração imobiliária; um restaurante caro e aconchegante: Harry entrando pela porta e trocando lhares com a mulher que havia amado havia 25 anos. Fitei Helen, perguntando-me se Tracy Egan continuava tão bela quanto na adolescência. Mas e quanto ao marido dela? Era difícil acreditar que Harry tinha conhecido o pai daquela garota.
— Bem, para resumir — prosseguiu Helen —, os 3 se encontraram depois de muitos anos e depois do jantar, meus pais levaram Harry para casa. Moramos em Virgínia. Você já foi para a Virgínia?
— Já — respondi sem muito entusiasmo. — Eu cresci em Virgínia.
— Então você sabe que as visitas que aparecem tarde da noite, na maioria das vezes, acabam pernoitando.
— Sei, sim.
"Principalmente quando essas pessoas estão bêbadas". No entanto, mantive o comentário para mim mesmo. Essa nova possibilidade, a cena dos 3 bêbados, acrescentou mais versosimilhança à narrativa. O que Tracy teria pensado ao reencontrar Harry? Ele não era mais o garotão loiro e bronzeado que ela amara aos 15 anos. Mas ainda era atraente. E muito rico.
— Meu pai é bem mais velho — explicou a garota, acrescentando outras cores à centa que eu criava na mente. — Ele fica cansado com frequência. Por isso, acho que, logo que chegaram em casa, papai deve ter ido dormir, deixando minha mãe e Harry mais à vontade para falar dos velhos tempos.
Estava tão escuro na sala qeu eu mal podia ver a silhueta de Helen. Ao me levantar para acender as luzes, ela pediu:
— Por favor, vamos ficar no escuro. Voltando à história, Harry dormiu no quarto de hóspedes e acabamos nos encontrando no café da manhã.
Eu havia sentido na pele a surpresa do pobre Harry. Fiquei imaginando se Tracy havia mencionado a filha.
— Então, foi assim que eu e Harry nos conhecemos. Ele voltou diversas vezes a Washington e, sempre que podia, vinha nos visitar. Às vezes era um jantar, um almoço e até um final de semana. E
foi assim que acabamos nos conhecendo melhor.
Esperei que ela completasse o raciocínio.
— E começamos a nos amar.
— Faz tempo isso?
— Uns 3 meses.
Não sei bem o que eu esperava ouvir —um ano, seis meses. Mas 3 meses queria dizer o começo daquele verão, e isso acrescetnava uma nova faceta ao Harry que conheci: esforcei-me para lembrar se e le havia mudado nos últimos tempos e cheguei à conclusaão de que Harry era o mesmo de anos atrás. Em suasbreves permanências em Hamptons — entre um negócio e outro — , nada em seu comportamento sugeria um relacionemanto amoroso. Outro detalhe curioso me ocorreu: se ele havia realmente reencontrado Tracy Egan, não me contara.
E eu pesava que o tinha conhecido bem. Desde a sua volta, 2 anos antes, costumávamos jantar ou beber juntos quase toda a semana. E, com essa reviravolta, percebei que existira outro Harry, o Harry que não se abria comigo. Surpreendi-me comm a minha revolta. Mas, procurando me ater à realidade dos fatos, eu e Harry só tinhamos falado de Tracy uma vez.
— Uma paixão um tanto quanto repentina — concluí em meio à penumbra, num tom de voz talvez cruel demais.
— Não foi bem assim. Eu expliquei que não foi físico. Ele só... — Helen hesitou antes de prossseguir: — Ele só me pediu em casamento.
— Quando?
— Semana passada.
Precisei me esforçar para não rir.
— Sei o que você está pensando, que eu me casei sem...
— ... sem amar Harry — completei.
Helene levantou-se sem dizer nada e caminhou até o bar. SEnti o perfume dela quando passou ao meu lado. Reconheci o aroma. Era muito parecido com o que Tracy costumava usar, e talvez ainda usasse.
Serviu-se de uma bebida e comentou:
— Eu acho que não é da conta de ninguém o motivo do meu casamento com Harry.
Concordei com um aceno de cabeça.
Ela passou por mim deixando outro rastro de perfume.
— Mesmo que algumas pessoas não concordem com o fato, eu me casei com ele e ponto final.;
— Casou ontem.
— Isso mesmo.
— Depois vocês vieram para cá e Harry foi ver o cavalo — acrescente isarcástico.
Helen corou, indignada com minha audácia.
— Não. Ele recebeu um telefonema, uma chamada de negócios. Pediu desculpas, mas precisava ir à cidade.
— E deixou você aqui, sozinha — frisei a útlima palavra — Na noite de núpcias...
— Não tenho medo de ficar sozinha — declarou e ficou em silêncio.
Terminei a bebida e servi-me de outra dose, sentindo-me à vontade, com odas outras vezes em que estivera ali com Harry. No entanto, Harry estava morto, sua viúva se encontrava no sofá ao meu lado ,bebericando calmamente. Quinze minutos se passaram; estávamos tão absorvidos em nossos próprios pensamentos que mal ouvimos a sirene que se aproximava a distância.
Ia me levantando para abrir a porta quando fui surpreendido pelo barulhos de um copo espatifando-se no chão. Helen não devia ser muito cuidados a ou se assustava com facilidade. O uísque se espalhou pelo tapete persa. Se m dramas. Harry não poderia mais reclamar do valor daquela obra de arte oriental.
Helen, mais preocupada do que eu , jogou-se de joelhos no chão e começou a recolher os cados de vidro. Parecia apavorada. Quase em seguida, levantei-a num gesto carinhoso.
E pela segunda vez tive que conter o meu desejo. Foi preciso um esforço sobre-humano para não agarrara aquela figura tão familiar, a imagem que dominou meus sonhos durante tantos anos.
— Você só precisa dizer a verdade —murmurei, referindo-me à polícia.
Se eu a estivesse espancado, sua reação não eseria muito diferente. Helen ficou lívida, como se fosse desmaiar.
—A-acho que devíamos abrir a p´porta ... — ela gaguejou.
Caleb já estava de pé na etnrada da casa quando atendemos à campanhia. Havia esfriado e nuvens escuras encobriam as estrelas.
— Boa noite — cumprimentou o policial ajustando a calça e entrando como se fosse o dono da casa. Fechei a porta logo depois que ele adentrou o hall.
— Você não sabe nem metade da história — comentei.
Caleb ficou imóvel no corredor, talvez supondo qeu eu fosse me explicar ali mesmo.
— É melhor você ouvir a viúva.
Devo ter pronunciado aquilo com sarcasmo, pois Caleb não conteve o comentário mordaz:
— Você parece estar bem por dentro do caso.
— Por mim, você pode achar o que quiser.
Caleb apreciou os quadros e a decoração sofisticada.
— Harry sabia como gastar os seu dinheiro.
Concluí que Caleb nunca havia pisado na mansão antes ... Interessante, considerando o fato de Harry ter me contado que os dois haviam sido tão amigos quando crianças.
— Ele era muito rico, e o dinheiro consegue realizar muitos sonhos.
Soei amargo; eu ainda não tinha superado a perde daqueles 400.000 dólares que herdara.
Helen nos ouviu chegar. Ergueu os olhos e movimentou a cabeça naquele gesto característico de sua mãe.
— Meu Deus! — o policial murmurou surpreso.
Caleb, ao contrário de mim e de Harry, não se apaixonara por Tracy,m mas certamente se lembrava dela.
— Incrível mesmo, não é? — sussurrei.
Recompondo-se , Caleb aproximou-se de Helen e transmitiu-lhe os pêsames da polícia de Hamptons.
— O sr. Harriman já me forneceu todos detalhes — ela disse ao aceitar o cumprimento do oficial.
Caleb fitou-me com ar de acusação. Sacuid os ombros; não havia por que esconder qualqeur detlhae à viúva.
— Eu sinto muito, sra. Boetchener, mas vou precisar lhe fazer algumas perguntas.
— Se preferirem ficar a sós ... — sugeri, enquanto, sem cerimônia, me servia de outro drinque.
A reação dos dois foi oposta.
— Se não se importa, Ben...
— Não, por favor fique — insistiu a víuva, o que deixou Caleb cheio de suspeitas.
Seus olhos encaravam Helen, pousraam em mim e voltaram para ela.
— Tudo bem. Mas, depois das perguntas, a senhora vai precisar me acompanhar até a delegacia.
Helen voltou a tremer; sentou-se no sofá, com os braços cruzados, e observou o tapete molhado de uísque.
— Desculpe o incômodo, é apenas rotina — Caleb tentou tranquiliza-la.
Terminei de me servir e acomodei-me no outro sofá. Caleb continuava de pé, agarrando o quepe com as mãos.
— Não sei bem como começar... — ele murmurou sem graça.
Caí na risada. Talvez meu descontrole se devesse à bebida, talvez à estranha sensação de ter encontrado a miragem de Tracy Egan. Caleb me olhou furioso. A garota me encarava como se a tivesse traído.
— Desculpe. Foi um dia exaustivo e cheio de surpresas. — Tomei mais um gole e fiquei quieto.
— Harry era seu amigo — Caleb me lembrou a título de repreensão.
— É, ele era. Ou pelo menos eu pensava que fosse. Agopra, nem tenho certeza se o conhecia bem.
Nos minutos seguintes, ficamos a ouvir o barulho do vento nas janelas.
— Até agora, o único fato concreto ´pe que seu marido está morto, sr.a Boetchner.
Uma estranha maneira para se começar um discurso oficial, pensei. Helen fitava o polkical incrédula, como se ninguém a tivesse chamado pelo nome dde casada antes.
Tirei o copo das mãos dela e acrescentei uma dose de uísque e algumas pedras de gelo. Helen me agradeceu com um aceno de cabeça.
— Estávamos casados há pouco tempo —a viúva explicou para Caleb. Ela parecia mais amedrontada do que quando estávamos sozinhos. — Para ser mais exata, nós nos casamos ontem.
— Sinto muito.
Caleb me mostrava umna faceta desconhecia, já que parecia realmente abalado. Comecei a perceber por que ,dentre tantas pessoas da região, ele havi sido eleito xerife.
— Talvez fosse melhor que a senhora mesma me explicasse algumas coisas.
— Obrigada pelo interesse. O senhor não prefere se sentar?
— Muito agradecido. —Ele se sentou na extremidade do sfoá, com a barriga sobre as pernas e o quepe no chão.
Helen repetiu a história que me ocntara horas antes. Não havia muyito o que dizer; no entanto, Helen esqueceu-se de um importante detalhe. Omitiu o fato de ela e Harry não terem dormido juntos. Ao fim da narrativa, aqueles enormes olhos verdes me impoloraram para não revelar seu segredo.
Eu já vivera tempo suficiente entre os ricos para entender o que aquele "pequeno" detalhe poderia significar. Pelo que sabia, Harry só possuía um parente vivo: a mãe, que havia se mudado da cidade anos atrás. Mas, se o casamento não se consumara e os possíveis herdeiros descobrissem, o caso provavelmente acabaria na justiça.
Após o relato da moça, Caleb tornou a dizer que sentia muito e elvantou-se em seguida. Helen também se ergueu do sofá conservando uma postura altiva.
Eu estava bêbado demais para confiar nos maus instintos. Bêbados costumam passar vexamens e dizer bobagens; mas , pelo que Prune havia me contado e pela minha própria experiência, eu sei que são nesses momentos que podemos ter uma visão mais clara da realidade.
Enaquele dia eu tinha a nítida impressão de estar assistindo a uma representação teatral recheada de troca de gentilezas e boas maneiras.
Foi quando Caleb tornou a me surrpeender. Realmente, aquela era uma noite atípica.
— Foi assassinato — comunicou-nos num tom acusador. Estranhei que ele quisesse comentar o caso com a garota.
As mãos de Helen tremiam.
— Deve haver algum engano ... — ela murmurou.
Mas, antes que Helen pudesse terminar o raciocínio , Caleb já balançava a cabçea em sinal de negativa.
— Não existe engano nenhum, sra. Boetchner. — Agora Caleb voltava a falar como um policial frio e competente.
— Seu marido foi assassinado na bia de Campeão, o cavalo dele. E o crime aconteceu ontem à noite.
— Alguma coisa está muito errada — afirmei.
Caleb encarou-me indignado. Eu me sentia flutuar numa nvuem de álcool.
— Campeão é um cavalo enorme. Você o viu hoje, Caleb.
— E daí?
— Daí que Harry também era corpulento. — Notei que a garota ainda tremia. — Você pode imaginar alguém tentando acertar Harry com um instrumento pontiagudo ... — Helen derrubou outro copo. — Enquanto o cavalo estava na baia? — terminei.
O policial observou o drinque derramado. Esperei que ele a ajudasse a limpar o tapete, assim como eu faizera instantes antes, mas Caleb continuou imóvel. Helen nos fitou por alguns segundos e então desmanchou-se em lágrimas. A interpretação ideal para uma viúva desolada: havia derrubado o copo estrategicamente para interromper a converasa. No entanto, ao perceber que nenhum de nós dois tinha se incomodado com o acidente, ela logo mudou de tática.
Caleb e eu sentamos e observamos a pobre criatura gemer até quase perder o fôlego com as lágrimas. Nossa anfitriã concluiu que o truqe falhar; só demorou alguns segudnos para se recompor.
— Se eu tiver que ir com o senhor para reconhecer ... — ela murmurou encarando Caleb, como se eu não estivesse no mesmo cômodo.
— ... reconhecer o corpo —compeltou o xerife para ajudá-la.
— É ... Farei o que for preciso. Será que podemos sair agora? Não sei se vou aguentar isso por muito tempo.
— Sim, claro, sra. Boetchner — ele concordou formalmente, levantando-se.
Caminhamos os três até a porta.
— Você ainda vai acabar afogado numa garrafa —Caleb repreendeu-me.
— Quem sabe ...
— Então é melhor vir comigo. Não está em condições de dirigir.
— Sim senhor. — E bati continência.
— Escute. Você devia ter mais respeito pelos outros.
A bronca foi bem dada. Corei e acabei concordando com Caleb. Em seguida, caí na risada.
— Veja como fala comigo, Caleb. Pelo menos na frente dos outros.
O xerife me encarou. Por um instante, achei que ele ia me bater.
— Harry era seu amigo, Ben.
— E seu também — fiz questão de lembrá-lo.
Caleb sacudiu os ombros.
— É, mas isso já faz muito tempo ... Harry e eu ... — Ele não terminou a frase. Acabei se msaber o que havia acontecido entre os dois . E concluiu: — Já estou farto de Harry Boetchner, vivo ou morto.
Ele parecia ressentido com o amigo assassinado. Talvez fosse por causa da casa, da fortuna de Harry, que parecia ainda tão "viva" ao nosso redor.
— Posso muito bem me cuidar sozinho —comuniquei a Caleb no hall de entrada. Esperávamos Helen, que tinha ido até seu quarto.
A moça surgiu diante de nós usando um maravilhoso casaco de pele cinza. Devia ter custado muito dinheiro. Aparentemente, Tracy Egan fizera um "bom" casamento, pois Helen ainda nã otinha colocado as mãos no dinheiro de Harry.
— Você nem consegue ficar de pé — Caleb berrou atrás de mim.
— Já dirigi muito mais bêbado do qeu isto — retruquei, encerrando o assunto.
Helen estava quase no topo da escada, brilhando como uma estrela de cinema naquele casaco cor de champanhe. Usava uma echarpe preta de seda em volta do cabelo.
— Você não gosta dela — o xerife afirmou num sussurro.
— Não.
— Por quê?
— Ela parece muito certinha ... E, na vida real, as coisas não são tão limpas.
— Isso não é real.
Caleb aproximou-se da viúva e a acompanhou até a porta.

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